Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"Entre as junturas dos ossos" - Vera Lúcia de Oliveira, 2006

"Sabia" - Chico Buarque

 

Entre as junturas dos ossos

 

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Libro vincitore, per la poesia, del

1° Concurso "LITERATURA PARA TODOS"

180.000 copie stampate e distribuite
nelle scuole e biblioteche di tutto il Brasile

Ministério da Educação, Brasilia, 2006
ISBN 85-296-0047-9, 15x18,5 cm, 70 pag
Ilustrações: Ribamar Fonseca
© Vera Lúcia de Oliveira

Seleção de poemas :
Meninas, Infáncia
Bicicletinhas na tarde, Biciclettine nel vento
A boneca, La bambola
Tormenta, Os passaros

Meninas

 

as meninas que da alma pulam

brincam de esticar

o tempo

 

com suas saias rodadas

dançam a canção mais pura

que aprenderam

correndo

entre as junturas dos ossos

Infância

 

perdi-me em funduras de juntas

perdi bichos nas moitas, rastros no escuro

perdi mormaços, brisas

fui gerando meu pisado vagaroso

nas fraturas das coisas

Bicicletinhas na tarde

 

debruçada na tarde

vejo crianças na fúria

de fabricar voragens de vento

estralam seus pedais

correm mais do que a dor

mais do que o tempo

correm contra a dureza

do muro

e da noite

Biciclettine nel vento

 

affacciata sulla sera

vedo bambini con furia

fabbricare vortici di vento

cigolano nei loro pedali

corrono più del dolore

più del tempo

corrono contro la durezza

del muro

e della notte

A boneca

 

toda ternura está numa boneca

que o tempo não cancelou

ficou entalada nalguma fresta 

de segundo entre um natal e um luto

com sua roupinha feita a mão

já puída, lavada pelas chuvas

cabelos crespos de menina 

coração de pano que batia 

como um coração de verdade

La bambola

 

ogn tenerezza è in una bambola

che il tempo non ha cancellato

è rimasta impigliata in qualche fessura

di secondo fra un natale e un lutto

con il suo vestitino fatto a mano

ormai liso lavato dalle piogge

capelli ricci di bambina

cuore di panno che batteva

come un cuore vero

Tormenta

 

o mar arremessava-se

contra o céu

a espuma rangia

e uns bicos de aves doídas

batiam na alma

batiam na alma

Os pássaros

 

os pássaros de pedra dilatam as oferendas

os pássaros de carne batem-se contra as grades

os pássaros de lata arrulham nas ferrovias dos nervos

os pássaros de madeira mascam o macio dos músculos

os pássaros de papel voam para dentro das crases

os pássaros de carvão rabiscam suas asas no ventre

os pássaros de fogo puxam os pássaros de chuva

os pássaros de pano acalentam os pássaros de pranto

Neste livro de poemas, a poetisa Vera Lúcia de Oliveira, em suas próprias palavras, nos oferece um convite a mergulhar no que há de mais intimo e intrínseco dentro de cada um de nós. É uma viagem pela memória, a infância que cada um conserva, a imagem de manhãs e tardes nas quais sentíamos a vida dentro de nós sem que tivéssemos, muitas vezes, noção e percepção desse milagre divino. E, como a poesia concentra significados, cada palavra no texto tem suo peso específico, é feita de concretude e pesa como a coisa que ela representa. Tem cheiro, sabor, range, geme, uiva, fala, às vezes rasteja na página como um bicho, esbreveja como uma pessoa ferida, ilumina como uma lâmpada, chora como num luto ou rasga a casca da semente, que é de som e ao mesmo tempo não é. O que está entre as junturas dos ossos é o que temos de mais profundo no corpo vivo, onde as palavras viajam, na profundidade da terra, das plantas, dos bichos e das pedras.


"nebbia sul Trasimeno", foto Claudio Maccherani, 2006

Prefácio

 

            Com quantas coisas se faz um poema? Com palavras, ritmo, cor – e um assunto. “Fui gerando meu pisado vagaroso/nas fraturas das coisas”. Nesses dois versos, Vera Lúcia de Oliveira diz muito sobre seu jeito de fazer poesia: lento, buscando a matéria do poema na ruptura da superfície lisa da realidade.

Para a autora de Entre as junturas dos ossos, as coisas se fraturam porque são percebidas em muitas dimensões, às vezes até contraditórias. Seus poemas procuram dar conta de todas as vidas presentes na memória: tudo o que foi vivido e perdido, e mesmo assim conservado. Eles querem dar conta do sentimento do que se foi e que ao mesmo tempo é definitivo.

Desse lugar de onde se avista tudo, a percepção da poeta vê de igual distância o mundo das coisas presentes e o das que nunca passaram. Visto dali, o cotidiano se desconstrói e seus elementos se transformam num sentimento de espanto, parecendo denunciar a existência de uma realidade notável logo abaixo da superfície do trivial e que se deixa ver justamente nos elementos mais banais oferecidos à percepção.

            Esses poemas graves, que anunciam e esmiúçam o mistério da perenidade do vivido, buscam as palavras exatas para dizê-lo, e com elas – com o instrumento delicado da exatidão – se desdobram em imagens que, embora incisivas, surpreendem por sua fluidez.

            O jogo entre as palavras duras e as imagens muito fluidas se estabelece graças à fina inteligência poética com que a autora constrói sua poesia. Uma síntese pontuada por cortes, mas ao mesmo tempo segura e clara, que faz com que o poema percorra os territórios do que é impossível dizer para dizê-lo mesmo assim, simplesmente e com finalidade, sempre com a qualidade de surpresa que instala o bom poema na mente do leitor, ao lado de sua memória das coisas vividas.

 

Heloísa Jahn, Commissão Jugadora, I Concurso Literatura para Todos, Brasilia, 2006

Entre as junturas dos ossos,  versione integrale in formato PDF (9 MB) del libro come pubblicato dal MEC (Ministério da Educação e Cultura do Brasil).

Recensioni: Ira Maria Maciel, in Revista Brasileira de Educação, vol.12 no.36, Rio de Janeiro, Sept./Dec. 2007; Maria Lúcia de Amorim Soares, in Revista Brasileira de Educação, vol.9 n.1, Sorocaba, SP, pp.145-147, Maio 2007, Vinicius Mizejeski, blog, 21/04/2012.

Recensioni nel sito >>

http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/MEC__entre_ossos.pdf

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(by Claudio Maccherani )