Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"No coração da boca" - Vera Lúcia de Oliveira, 2006
À minha mãe Aurive

"Beatriz" - Chico Buarque

 

No coração da boca

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Escrituras Editora, São Paulo, 2006
ISBN 85-7531-202-2, 13x20 cm, 80 pag
foto di copertina di Claudio Maccherani
rielaborazione grafica di Elisa M.B.Torres

Prefazio
Lêdo Ivo
Donizete Galvão
© Vera Lúcia de Oliveira

 

Seleção de poemas :
O pai, A louça, Dona Cota
No ônibus , Passarinho
, Os bijus

 

Per l'acquisto del libro:Escrituras Editora e Distribudora de Livros Ltda
Rua Maestro Callia 123, 04012-100 - Vila Mariana - São Paulo - SP
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internet: http://www.escituras.com.br

O pai

quando o deixei estava de pijama
perdia-se num mundo branco e mudo
disse pai a gente volta no domingo
olhou-me quedo não respondeu
não disse absolutamente nada

 

 

lettura di "quando o deixei..." (Vera Lúcia de Oliveira)

A louça

posso lavar, limpar a casa toda
deixar num brilho a louça
arear as panelas a moça não 
vê que mão calejada tenho
nasci trabalhando estou
acostumada a lustrar a casa
das patroas

 

 

lettura di "posso lavar..." (Vera Lúcia de Oliveira)

Dona Cota

disse que a dona Cota tinha começado
a falar com os mortos 
chamava o pai, falava com a mãe
disse que era assim os mortos
é que vinham buscar os vivos
quando a gente já é um pássaro
e se prepara para o vôo
mas ainda não sabe 
se vai voar

 

 

lettura di "disse que..." (Vera Lúcia de Oliveira)

No ônibus

dormia no ônibus
a cada parada o corpo se sacudia
ele abria os olhos via a gente que entrava
via a gente que saía pensava fosse 
outro aquela moça aquele rapaz
tinha outra história começava de novo
morava noutro canto da cidade
cochilava com aquele sonho
de ser qualquer outra pessoa do mundo
menos ele mesmo

 

 

lettura di "dormia no..." (Vera Lúcia de Oliveira)

Passarinho

no portão o homem se esforçava
para se manter em pé
a patroa não daria uma ajudinha
um prato de comida serve
são três dias que não como ando sumido pelo mundo
quem me procura não acha estou virando passarinho
dei até para sobrevoar as casas e ver o mundo
todo de lá de cima

 

 

lettura di " no portão..." (Vera Lúcia de Oliveira)

Os bijus

o beijueiro passava de bicicleta
um velhinho raquítico que falava pouco
abria a lata, tirava o biju quentinho
guardava a moeda no bolso
subia na bicicleta e saía pedalando
com seus bijus pelo mundo

 

 

   lettura di "o beijueiro..." (Vera Lúcia de Oliveira)

Entrar no mundo poético de Vera Lúcia de Oliveira é descobrir que ela sente com delicadeza e profundidade. No cerne da palavra, pulsa o coração do poeta cheio de compaixão e de ternura pelas vidas minúsculas. Seu ouvido está sempre atento para registrar aquilo que está prestes a perecer. As pequenas histórias, as recordações da infância e as falas do quotidiano são captadas, elaboradas e ganham expressividade máxima em versos concisos, límpidos e despojados.

A sua poesia nunca soa estridente, é sempre dita a sotto voce. Ela abre mão de adornos que possam desviar a atenção, para concentrar-se no que há de mais essencial: o lugar do ser humano em um mundo em que parece não haver mais lugar para ele.


"arcoiris", foto da capa de Claudio Maccherani, 1990

Em No coração da boca,Vera Lúcia traça, com rigor e sutileza, uma crônica bem arquitetada das vidas arruinadas, dos sobreviventes, dos desamparados pela sorte. São retratos 3X4, fragmentos desse desastre social brasileiro. Fala dessa gente que “deseja tanta coisa”, mas “tudo vai passando por cima”. Gente que deseja o que não pode desejar. Coerente com seu projeto, foge da idealização da infância ou da vida do interior. Mesmo nos momentos de alegria, há uma dor calada nas entrelinhas. Uma dor sempre pressentida naqueles poemas que retratam a infância.

Vera Lúcia de Oliveira ouve as vozes provindas das coisas. Escuta essas falas sussurradas como um gemido. Daí o uso do ready-made para captar no particular o que é uma representação do social. Este momento raro em que o poeta, com toda humildade, se transforma em fio condutor de outras falas está em suas mãos neste belo livro que a gente lê com uma “apertação na alma”. Sempre resta uma mínima esperança “no fundo do pavio/ainda capaz/de acender/e de incendiar”. Esta é a poesia de Vera.

 

Donizete Galvão, São Paulo, 2006

LONGE DO ESPLENDOR

A evidência de que a poesia é um sortilégio organizado está aninhada, como um pássaro, neste No coração da boca, de Vera Lúcia de Oliveira. O título sugere uma certa premência ou urgência de ser e expressar-se: uma intenção até sôfrega de confessar-se ou o instante de uma respiração suspensa, após um susto ou uma corrida. E na verdade ele se ajusta plenamente a esse lirismo que, mesmo sendo uma magia vocabular, recusa o fulgor e o esplendor, preferindo o caminho dos monólogos desolados que registram o desamparo e a colisão de seres miúdos, de pequenas vidas aflitas e ambientes sufocantes. É uma poesia da opacidade do mundo, uma dicção em surdina e em sussurro. O tecido poético usado por Vera Lúcia de Oliveira não é uma tapeçaria, antes uma estopa que indica a mais pobre materialidade da vida.

A poesia é construção, desconstrução e reconstrução. Vera Lúcia de Oliveira constrói, desconstrói e reconstrói: tece, destece e retece o tecido da vida. A sua delicada matéria poética se enraíza no que a existência cotidiana tem de mais oculto ou esquivo. Nenhuma transcendência ampara os seus versos – os versos de um lirismo coagulado que transgride conceituadas medidas métricas para, numa desconstrução aparente, impor uma verdade que punge e incomoda.

Esta poesia altamente substantiva, e na qual a ênfase está desterrada e abolida, é uma confidência fragmentária, uma confissão emaranhada. Através do emascaramento sutil, Vera Lúcia de Oliveira se confessa e se esconde. E, no outro lado, do rio ou da terra, ela confessa outros seres e faz ouvir outras vozes. E, com a modéstia verbal que é a sua virtude, celebra a penúria do mundo e o desamparo dos seres.
Nesta poesia sem maiúsculas, sem vírgulas e sem pontos finais – nesta poesia contínua e descontínua que se deseja nua e desprovida de encantos e ornatos - a noite escura  da alma e do verso é iluminada por uma constelação.

Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, outubro 2003

Recensioni:; Marco Agueiva, na Revista da UBE "O Escritor" n.118, aprile 2008; Osvaldo Duarte, 30/06/2008.

Recensioni nel sito >>

Presentazione Donizete Galvão, Casa das Rosas, Av.Paulista 37, São Paulo, 22 agosto 2006

Presentazione >>

Versione italiana del libro, "Nel cuore della parola", Adriatica, Bari, 2003  >>

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(by Claudio Maccherani )