Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"Minha língua roça o mundo" - Vera Lúcia de Oliveira, 2018
A Sonia, que viu nascer este liovro

Minha língua roça o mundo

 

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

 

Editora Patuà

São Paulo, (SP-Brasile),  agosto 2018


ISBN: 978-85-8297-602-9, 16x22 cm,96 pag, 40R$
(foto di copertina di Vera Lúcia de Oliveira)

 

Postfazione di Alexandre Pilati
© Vera Lúcia de Oliveira

 

   Selezione di poesie:
atraverssar cada corpo / há tardes que não se despedem
um cão late no sonho / a m
voa dentro de si / nasci de uma aranha
toda ausência  / entrou em casa

 

Per l'acquisto del libro:  Editora Patuà,
Rua Luis Murat 40, 05436-050 São Paulo - SP - Brasil

 tel: +55 11 96548-0190

 mail: editorapatua@gmail.com

internet: www.editorepatua.com.br

atravessar cada corpo
tocar o espesso do osso
que é nosso e do outro
estar onde se padece
com fúria de paciência
estar onde se lavra uma horta
onde se lava uma roupa
onde se reza e se cura uma dor
estar onde se nasce e onde se fenece
e ser nesse morar e estar nesse morrer

há tardes que não se despedem
apenas encostam a porta
nessas cabem os rastros
de todo bicho que ronda
nessas tem lugar um olho sempre se indo
sem nunca poder chorar
nessas há um rumor de chuva
se desmanchando na terra em torrões 
que desabam em desfiladeiro
levando tudo consigo

um cão late no sonho e me chama para fora
e eu levo o cão para dentro e nele emendo
outro cão de outro tempo que me lambe o rosto
e me roça o corpo como se soubesse
desde sempre quem sou eu e quem é ele

a m

voa dentro de si
agora que ficou velha
rasante aos muros de suas
vértebras que se quebram
como farinha branca

agora que ficou velha
podem roubar-lhe casa
que a casa é dentro

nasci de uma aranha
que me fisgou por dentro
com seu fio de visgo
que defende a greta
aberta na madeira

o brilho felpudo
enlaçou meu pulso

e aprendi ali
que toda beleza
tem custo

toda ausência
é um cão
que gane
sem despedaçar
o silêncio

entrou em casa
chutando a sombra
e se fechou no banheiro
encostou o rosto no frio
ferido do espelho
e foi comendo a noite
sem fazer ruído

O grande desafio da poesia é alcançar a transcendência, ou seja, falar a partir de um lugar e de uma época específicos para leitores de espaços e tempos singulares. Todos buscam, perseguem essa equação, mas poucos são aqueles que a alcançam, pois não basta a sensibilidade para escolher os temas, nem a técnica para formatá-los. A poesia, a grande poesia, aquela que permanece, ilumina espaços, capta nuanças e detalhes, onde outros apenas enxergam escuridão; dá materialidade ao inefável por meio de rigorosas construções formais. Vera Lúcia de Oliveira inscreve seu nome entre os grandes poetas brasileiros pela maneira como consegue ser ao mesmo tempo contemporânea e clássica, tanto na forma como no conteúdo.

 

Clássica e contemporânea, assim é a grande poesia de Vera Lúcia de Oliveira.

 

Luiz Ruffato

 

[dal risvolto di copertina]

 

Assis, SP, Brasil, 2017 (foto di Vera Lúcia de Oliveira)

Postfazione

Toda vida tem custo

 

Minha língua roça o mundo cria um espaço de negociação "onde se pechincha/ o que sobra da vida". O leitor está convocado a entrar nesse espaço e negociar com seus próprios resíduos, suas memórias, seus sentimentos, sua experiência de perda. Está igualmente convocado a acompanhar um percurso dolorido de negociação do sujeito lírico com o tempo e com o sentido do existir, os quais exibem no plano da poesia seus avessos, suas vísceras, e o custo da inquestionável beleza deste livro.

A poética que aqui se apresenta é densa, madura, delicada, lúcida, rigorosa, empática e sutil. A poeta permanece fiel a um padrão estrutural que domina plenamente, o qual propicia considerável voltagem expressiva aos versos. Compõem a obra textos curtos, que se valem de uma sintaxe e de um léxico familiar, de um ritmo e de uma imagética extremamente regulares, de variância absolutamente controlada pelo talento autora. O resultado é que Vera Lúcia de Oliveira consegue extrair um máximo de possibilidades poéticas de um mínimo de recursos poéticos. (...)

Os poemas de Minha língua roça o mundo recuperam alguns processos básicos da poesia de Vera Lúcia de Oliveira, observados também em livros anteriores, como O músculo amargo do mundo  e Ditelo a mia madre. Mas aqui estes processos estão, por assim dizer, radicalizados. Um deles é a obstinação da poeta em usar o olhar lírico para unir o mínimo e a amplidão, para entranhar na fresta a vastidão. Veja-se, por exemplo, o poema "há tardes que não se despedem...". É o que poderíamos reconhecer como uma ânsia por desindividualizar o olhar e a voz, uma busca por destacar o imediato e elevá-lo ao plano do universal, onde é possível reconhecer, na experiência de dor do outro, a própria experiência de sofrimento; e vice-versa.

Outro processo básico de sua poesia que aqui está ativado de modo especial reside na maneira muito hábil como a voz lírica articula as distâncias e as proximidades entre o eu que fala e o outro, quase sempre distante no tempo, no espaço ou na sociedade. Essa voz que fala é sobretudo "empática", no sentido de que ela é capaz de adentrar a perspectiva do outro, o que às vezes faz com que o eu melhor se observe e outras vezes faz com que o outro ausente ganhe voz e reconhecimento. (...)

Há, pois, um incontestável destino de identificação no movimento poético da voz lírica, que busca pares em desamparo, busca irmãos no desespero e na delicadeza. É o que acontece quando vemos sua figura quase desdobrada em cão ("levo o cão pra dentro") ou em andorinha (“voa dentro de si”), numa proximidade que se diria franciscana com os animais, que também cantam e que também sofrem a dor da existência.

Mas, se pudermos amplificar essa noção de complexo direcionamento poético à alteridade, verificaremos que a voz lírica da poesia de Vera Lúcia de Oliveira está empenhada em dirigir-se à ausência. É a ausência o grande e espesso núcleo semântico de Minha língua roça o mundo. Para fazer com que o ausente seja figurado, a autora recorre a dois procedimentos imagéticos fundamentais, que têm o condão de sublinhar delicadamente o caráter residual do que passou, do que não é mais, do que é perda, muito embora não tenha sucumbido completamente ao deperecimento. Expressados em termos de parcelas ou resíduos, o corpo e a casa têm papel fundamental nesse esquadro poético de ruína, finitude, morte e ausência. (...)

Aí está, a meu ver, indicado o custo da beleza. Num dos poemas mais belos do livro, a autora enuncia algo central para a compreensão de Minha língua roça o mundo: “e aprendi ali/ que toda beleza/ tem custo”. Ora, podemos interpretar esse custo, tendo em vista que o livro é um manso e delicado lamento pela falta, como algo vinculado de modo muito profundo a uma outra ausência linguística: a da palavra "saudade". Palavra unicamente encontrada em português, sente-se forte sua ausência num livro que trata de perdas. Entre tantas outras coisas, o livro, também nas ausências, dirá ao leitor: a saudade é o custo da beleza. E o custo, a rigor, é sempre o inominável, o impossível de se dizer. Mas podemos, então, acrescentar: além de um custo, a beleza e a poesia têm um valor. Extraído do desamparo, da nostalgia, esse valor ajuda a vida a continuar, agora elevada à plenitude da forma-poema, onde vale pechinchar "o que sobra da vida". Nesse sentido, a poesia também é uma resposta, um desrespeito sadio e humano, uma resistência a todas as formas de morte e de finitude.

Alexandre Pilati

Lançamento:

,Patuscada-Livraria, bar & café - Rua Luís Murat 40, São Paulo, 30 agosto 2018

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(by Claudio Maccherani )