Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"A chuva nos ruídos" - Vera Lúcia de Oliveira, 2004

"A pesar de você" - Chico Buarque

 

A chuva nos ruídos
antologia poética

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Opera vincitrice del
"Prêmio ABL de Poesia", 2005
Academia Brasileira de Letras 

Escrituras Editora, São Paulo, agosto 2004
ISBN 85-7531-134-4, 13x20 cm, 160 pag

Prefazione di Carlos Nejar
© Vera Lúcia de Oliveira

Dos livros:
Pássaros convulsos (2004)
Tempo de doer
(1998)
Pedaços
(1992)
Geografias de sombra
(1989)
A porta range no fim do corredor
(1983)

Recensioni

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poemas de Pássaros convulsos :

”ave em carne viva”, pastores de pássaros, rosto inverso, tijolo, moenda, choro, a vida mesmo cura, a primeira vez, torce-se o vento, obsessão, aprendo, o bojo das coisas, no teu corpo, o abandono, enfermas, os livros, dos loucos, pássaros convulsos, calor de outubro, o vento não conhece, os retratos, desse rio, resistência, casebres, geografia, a passividade, incompatibilidade, estado de viagem, rumores, carícia, terceiro mundo, infância, outono, luz da tarde, partição, esgarçar-se, nem todo verbo.

poemas de Tempo de doer :

tocaia, palafitas, coisas, casa abandonada, para o filho, paredes, paralisia, vasos dentro de casa, canções, assis: a criação, assis: a difusão, o vento na árvore é deus, vezes, luz do quarto, telhado negro, o gato e a física, o olho, previsões, lição de ácido, a história, só o paf da coisa, o inquilino novo, o sádico, tortura, feridas, dor (I), dor (II), os deuses, gemidos, viro tarde, já é idéia, ovo de dor, o sinônimo, diante de deus, cortes, criaturas de sombra, como um guincho, rodas, o indizível, quando eu morrer, Cândido Mota, as pala-vras todas, passos, borboletinha, nem indo nem vindo, caminho, andorinhas, os arabescos, poema para Manoel de Barros, crônica milanesa, gênese de Miró, o ateliê, natureza-quase morta, árvores, na volta, sentir o vento, posvérbio.

poemas de Pedaços :

o direito ao esquerdo, cão batido, o filho, experimento falho, o trigo, migração, canção de exílio às avessas, a guerra II, misticis-mo, negação, inverno, poema, pedras, março no horizonte, os bichos, sem palpitações, agudo, postes, do avesso, praça, infância, lenço estendido, os galos, noturna, borboletas surdas, os bruxos, os olhos do pai, os gatos, coisas aflitas.


Cielo brasiliano
foto Vera Lúcia de Oliveira, 2003

poemas de Geografias de sombra :

a poesia dói dentro de mim, meu pai, grade de ferro, o útero, janela aberta, rua de comércio, canção de ninar, o silêncio, profano as coisas, a minha poesia não fala nada, tardes de aula, o mar e o brejo, pedaços , notas, explicação desnecessária.

poemas de A porta range no fim do corredor :

a porta range no fim do corredor, atávi-co, felicidade, tarde, pessoas, lascas, quando.

A CHUVA NOS RUÍDOS, OU RESPIRAÇÃO DE TODOS

 "Um amigo para respirar juntos" – observa Elias Canetti em seus Apontamentos. E nisso pensei ao ler a poesia lúcida, clara, dorida e tantas vezes luminosa de Vera Lúcia de Oliveira, brasileira-italiana ou italiana-brasileira que, radi-cada em Perugia, é doutora em Literatura, crítica e tradutora. Sua poesia nos dá a impressão jubilosa de respirar junto com o leitor, oscilando com o sopro, o fôle-go, as batidas rítmicas de um coração. Seu reconhecimento que já ocorre na Itália, onde tem editado os seus livros, merece que também se imponha no Brasil, des-fazendo o preconceito de que "ninguém é profeta na sua terra". E esta antologia, A chuva nos ruídos, pela Escrituras Editora, vem preencher essa evidente lacuna.

 

Sua criação perfaz-se de pedra e ferro, como uma escultura, com o poema forjado por um Rodin contemporâneo, um Brancusi, profanando as coi-sas, desmistificando os signos, quebrando os símbolos, rasgando as formas, des-constituindo para recriar, plasmar, permanecer, mesmo sabendo que "morrer cansa"; propondo "a negação que é vontade de virar palavra", embora com ver-sos que são pedras. Pois é a construção de um livro de livros, edifício verbal har-monioso e terrível, onde a beleza apóia-se nos prumos. A imagética sinestésica deslumbra o leitor pela junção de elementos inesperados: "Os relâmpagos e seus roncos"; "meio-dia de sol que atravessa a alma"; "o latejar de cão batido"; "dor de bicho / prazer de bicho". Ou este prodigioso provérbio: "depois de ter puído a pedra / a água perdeu o emprego".

 

Sua poesia é composta de marcas inesquecíveis, poemas-crisálidas. Cito alguns: "O direito ao esquerdo", "Misticismo, "Pedras", "Os galos", "Os bruxos", "Os olhos do pai". Todos gravados com as obsessões do sofrimento. Subjazendo a isso, entretanto, um sol infindável, as palavras que ficam, pois são "as que vai dizer antes de morrer". E tal é a dor que começa a se quedar sem dentro – pela superação, pela rasgadura, os porões do céu e os gemidos ("que buraco negro engole tudo?"). Há o tempo de roer e o de coser, o da traça e o da paciência, como no Eclesiastes. "A hora de poder gemer" não seria a da transcendência? Momentos para nascer. E a infância compadece-se, brota "cheia de trens", e a adolescência "de rodas". Da velocidade ao círculo, a rotação. A infância sabe de si mesma, onde (e isto é antológico!) "quem mais vê, mais afunda na morte". Portanto, de fragilidade em fragilidade, "loucos chamam nossa alma". Daí ser a visita a Assis, do "louco" Francisco, a liberação da forma, a lenta edificação das mãos e o final súbito: "a outra estava / é". Persiste. Dura. E o belíssimo "O vento na árvore é Deus". O Vento do Espírito que sopra onde quer. O que é a Rocha vivente. A árvore que voa, a flor que permanece contínua (como a de Drummond, que fura o asfalto), apesar do "bicho comido pelo escuro" (o terror, o medo). É árvore de luz, onde "o que mais caminha / fustiga". Sim, este é um verbo com que a poeta intenta atrair, fascinar, atordoar o leitor. Mas não é só o movimento, o açoi-te, é também a paralisia – instante extraordinário desta coisificação do universo, que esta poesia reflete com a precisão de quem respira, com a pergunta: "Pesar é mor-rer?" E o lugar da terra é improrrogável. Não só por ser com(pacta), isto é, destino, mas por seu ofício de prolongar a humana transitoriedade. Nem por isso foge do social, do quotidiano, da constatação da miséria circundante, da guerra criminosa. "Palafitas", entre outros, abre-se a uma humanidade que "rói a guerra roendo / a luta". Aliás, é admirável este poema, em que o dinamismo imagético desdobra-se e nutre-se "dos vermes em conclave", "o fio da vida" é o alimento da fome. Pois tudo é penúria, fome, charco no mundo que nos cerca e que o poema capta. A riqueza desta poesia está na aparente pobreza, que, por sinal, embasa a estética do cinema novo, com Glauber Rocha (Terra em transe). O despojamento é um penetrar nas coisas pelo avesso, certa carnavalização backtiana. E é o tijolo que engole a histó-ria, numa inversão de acontecimentos. Porque a história é coisa e a coisa corrói-se, inapelável. No entanto, o mais curioso: a arte veriana desarma-se, armando, como "o pomar dos verbos verdes" que explode junto ao "vento roedor". O tato é o tempo, "à espera das tubas do juízo"... Sim, tudo é trituração, absorção, lucidez intermitente; palavras-ossos, palavras-tijolos, palavras-pedras, palavras-juízos. Toda essa concreção do abstrato planeja a claridade.

E o cosmos dilatado pela imaginação dos avessos move essa poética, às vezes, pongeana, com dicção peculiar, a mudez exposta, "universo inchado que não lateja (quantas vezes o verbo "latejar"!) por não ter osso". Pois o "osso" é o traço da existência e da morte na criação de uma secura que não permite inter-valo da inconsciência. Todavia, trabalha a armadilha nesta caça em que o caçado é o caçador com a suavidade dos adágios: "o que mais deve ter doído na cruz / é a passividade", ou "a pedra está na água em estado de viagem".

 

Vera Lúcia de Oliveira, presa à língua portuguesa pelo vínculo da simplici-dade bandeiriana e à "pedra" de Drummond ou cabralina, aliado ao da contensão e sonoridade de Cesário Verde ou Camilo Pessanha, é italiana, de outra feita, pela devastadora humanidade que povoa de resistência até as pedras do silêncio. Ou da matéria consumida, tais como Montale, Quasímodo, Ungaretti. Um mundo que se desfaz na juntura do osso. Sem esquecer nunca – o que é criativo – o diálogo intertextual que se fertiliza com sutileza e sátira como em Geografie d’ombra (1989), poema sinfônico de variações e assonâncias que se interpõem. Como facas na mão de exímia atiradora. Nada nesta poesia é impassível: os retratos na parede, os utensílios substantivos ou adjetivos. O verbo é de constante locomo-ção, eixo rodando o moinho, rio subterrâneo, em que a alma não deixa de ser fungível, pétrea. E se os livros querem ser lidos, esperneiam, nominalizam-se com a identidade do sangue. "Escrever com sangue é escrever com espírito" – obser-vava Nietzsche. Numa arte de onomatopéia que cintila: "pé de pedra / pedra que se desprega / da própria pedra", unida a uma beleza hipnótica: "Andorinhas cal-mas / incham ninho na alma" ou "cães que aprenderam a amar outra espécie de morte". E que morte é essa, senão a do desconhecido, a de engendrar, apren-dendo o esquecimento. Mas a expectativa é a de que a dor "seja fugaz, que tudo se obstine em ser fugaz". Sem perder o choque, a astúcia borgeana de captar o leitor: com a "porta... batida" // um baque de corpo / coxo". Vera é poeta de um sofrimento que rejeita a resignação, combate o revés, labora entre quedas do mundo onde até o sol "é fundo feroz". Contudo, sabe contemplar doce e terna-mente o universo. E simultaneamente, é palpável, inventivo, o túrgido ruído que se mantém na reiteração do "p" e "v", as fricativas do tempo, a sina, "o vício de virar do / avesso o ventre / de palpar a vértebra / onde palpita a voracidade / do ser em oscilação". O ludismo é autofágico, inexorável. E tal antilirismo engendra a música do abismo, o abismo do contraste, o som atonal da dor escavando. Então as imagens surpreendem pelo absurdo de um Ionesco, como a de um "cão doente / à procura do dono / que o matou a pauladas". Um cão fantasma, um cão punitivo, um cão saído das ruínas de Comala, de Juan Rulfo. Compondo-se de uma sabedoria do refrão que se oculta, com versos-lápides, como pretendia Eliot, vislumbrando: "A vida mesmo cura / o mais obstinado amor". A técnica moedora, de palavra em palavra, sulcando-as em delírio, com a prática de agôni-ca laceração. O poema é a coisa, que "retoma o pó das horas". As coisas são escavação, a perna – a perna. E a incompletude: lastro corrosivo.

 

Ressalte-se, leitores, quanto esta poesia é de humildade, fereza, com o jogo metafórico trabalhando entre oposições, seja de vocábulos, seja de percep-ções, seja de um tempo que opera internamente. Vejam a pungência e os con-trastes: "adoecia para ver o pai despetalar-se / os caibros / refazer sobre nós suas mãos de paina", em "Rosto inverso". A busca da sombra paterna, do pai maior, como Enéas a Anquises, depois da morte. Mas não se enganem, trituran-te é a luz, sim, a luz da moenda esmagando os grãos graves. "Osso", "pele", "san-gue" – elementos comuns do corpo do poema. Um ser vivo. O sol roedor, a moenda do tempo, o envelhecer da matéria, "o coração da noite quebradiço". Pois o poema em Vera Lúcia de Oliveira pulsa, semente no ventre de incendiada criação com o fogo que a brisa leva. Não, não podemos ficar jamais imunes ou isentos ao seu fragor de crítica solidariedade. Pela capacidade volátil de um ser que se enraíza numa outra, de penedia, severidade verbal. Não se entrega de logo. Descoberta é o que existe em cada verso, senso de real, totalidade. Com fluidez de água austera, pura, sabe capturar, iluminando, os fluxos e refluxos no poço de nossa condição humana.

Carlos Nejar, Paiol da Aurora, Guarapari, ES, 12.12.2003

Prêmio ABL de Poesia 2005

Rio de Janeiro, 6 de maio  de 2005

Ilma. Sra.

Vera Lúcia de Oliveira


Prezada Senhora:

Comunico, com muita satisfação, à ilustre escritora que o plenário da Academia Brasileira de Letras decidiu conceder o Prêmio ABL de Poesia de 2005 a V. Sa. por seu livro A chuva nos ruídos, e à escritora Neide Archanjo, por seu livro Todas as horas e antes.

Ao felicitá-la, aproveito o ensejo para informar-lhe que a solenidade de entrega será realizada na sede da Academia, no Rio de Janeiro, no dia 20 de julho, quarta-feira, às 17 horas.

Na oportunidade, apresento-lhe as expressões de apreço e consideração. 

Atenciosamente, 

Ivan Junqueira

Presidente

Academia Brasileira de Letras,  Av. Presidente Wilson, 203 -  Castelo, 22030-021 – Rio de Janeiro

Recensioni: Prisca Agustoni, Semicerchio, numero XXXII, 2005, p.94, Álvaro Alves de Faria, rascunho, Críticas e resenhas, Curitiba, 11 agosto 2006, Kátia Cristina Pelegrino Sellin e Ricardo Magalhães Bulhões,

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Presentazione sarau poetico alla livraria HAIKAI, rua Armando Penteado 44, São Paulo, 27 agosto 2005

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(by Claudio Maccherani )