Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"Vou andando sem rumor" - Vera Lúcia de Oliveira, 2015

Vou andando sem rumor


Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Editora Gazeta, Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, agosto 2015
  Collana Sentimentos do Mundo, Volume 4, Brasil
ISBN 978-85-63336-78-1, .12x17,5 cm, 126 pag
© Vera Lúcia de Oliveira

Seleção, organização e apresentação José Eduardo Degrazia

foto di copertina di Lula Helfer

Dos livros:
A poesia éum estado de transe (2010)
Entre as junturas dos ossos (2006)
No coração da boca (2006)
Pássaros convulsos(2004)
Tempo de doer
(1998)
Pedaços 
(1992)
Geografias de sombra
(1989)

Per l'acquisto del libro rivolgersi a:
Editora Gazeta, Rua Ramiro Barcelos, 1224
Santa Cruz do Sul - RS, CEP 96810-900
Telefone: (51) 3715-7800 - Fax: (51) 3715-7944
E-mail: info@editoragazeta.com.br 

"O bêbado e a equilibrista" - Elis Regina, 1979

 

A Edoardo Dall'Alba, grande poeta, amigo caro e generoso, que tão cedo nos deixou.

poemas de A poesia é um estado de transe :

a poesia é um estado de transe, vozes, acordou de noite, a maior causa, tem palava, há uns que são engenheiros, o vôo, o mistério, a cidade e o corpo, o coração das sementes, decisão, a solidão, o amor, as ventanias, teoria e prática, sabia falar, amei, os dias nublados, as lascas, o armário.

poemas de Entre as junturas dos ossos :

meninas,infância, bicicletinhas na tarde, até o fundo, aprendi o vento, tormenta, acalento agreste, os pássaros, quase, revés, nem só de vento, sempre, a boneca, vozes II. os amantes, pelo fogo da fala

poemas de No coração da boca :

o pai, a arrumação, no metrô, a menina, o filho, a música, balão, histórias, a pescaria, o quintal, estranha, goteiras, o vento, agosto, as coisas

poemas de Pássaros convulsos :

pastores de pássaros, moenda, aprendo, o bojo das coisas, os livros, calor de , utubro, casebres, geografia, estado de viagem, terceiro mundo, outono

poemas de Tempo de doer :

canções, assis: a criação, assis: a difusão, vezes, o gato e a física, a história, dor (II), os deuses, diante de deus, criaturas de sombra, rodas, o indizível, as , alavras todas, crônica milanesa

poemas de Pedaços :

março no horizonte, borboletas surdas


Vera tra la lavanda della Provance  (foto Claudio Maccherani,, 2015)

poemas de Geografias de sombra :

a poesia dói dentro de mim, rua de comércio, o silêncio, pedaços

A POESIA DE VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

 

A visão (de mundo) da poeta Vera Lúcia é um olhar de mulher adulta, acostumada com o mundo, mas o seu olhar é o da menina interiorana, que se espanta. Sua poesia é feita de uma substantivada realidade, dura, sem misericórdia, principalmente consigo mesma. Mas a menina socorre, dá-lhe a mão, puxa-a de situações sombrias e a coloca diante da luz. Diante da luz das coisas do mundo, que, muitas vezes, ofusca; outras, apenas esclarece. E quando esclarece, abre a porta da poesia. Que se não se quer clara, como um enunciado matemático, mas se apresenta como a reflexão da imagem na retina de uma águia. Ave que paira sobre a paisagem com seus olhos e garras aduncas e vai direto ao que interessa: a carne intensa da vida. E, neste sobrevoo, troca o bico recurvo do falcão pelo fino estilete do colibri. O beija-flor vence a ave de rapina. Não é esta, de certa forma, a tarefa de todo o poeta consciente? Que, no voo sobre a cidade dos homens, vê com suas pupilas aduncas:

a cidade e o corpo branco

de cidade-osso de cidade-cerne de cidade-lúcida

no moer dos rastros no pilar de voos

em que os corpos bastam

A ideia da poesia como um voo sobre o mundo, o destino, a vida, ora como uma ave/águia, ora como uma ave/sabiá, é uma imagem que salta aos sentidos do leitor atento:

ia como um pássaro de costas carregando no ventre o futuro

ia até onde os cães lambiam as feridas porque no escuro aprenderam a consolação

[da saliva e o apego dos membros ia porque atrás tinha um esquecimento

[de carne batida e não supurada pelo medo pelas portas

[pelas pegadas no tijolo porque precisava gerar nas entranhas

[a razão do seu voo

A poesia de Vera Lúcia é de uma razão advinda dos pássaros ou dos deuses: sem misericórdia aparente. Não fosse a menina que de dentro a co/move. Esta menina essencial muda tudo, aceita o mundo como ele é, mas procura o sentido – que pode ser a pura beleza encontrada no cotidiano, ou, quem sabe, Deus:

a poesia é um estado de transe a poesia é um estado com Deus

quando tem hora em que Deus nos visita a casa se enche de tudo quanto

Deus carrega consigo no seu útero

A visita deste deus, ou a epifania, em geral, na poesia de Vera Lúcia não é grandiloquente, nem se traduz em adjetivações desnecessárias, mas se liga diretamente ao cotidiano, às coisas, ao mundo palpável e próximo – do qual nunca se espera nada, mas repentinamente se demonstra em forma de palavra/manifesto/poema: nós, os seres, existimos, vocês não estão vendo? As coisas se manifestam, gritam, falam, declaram sua existência no poema:

ouvia vozes

dizia que quando a pessoa saía as coisas ficavam gemendo a ausência como um cão

que não podia viver sem a ternura do seu dono

Mas há uma outra vertente na poesia de Vera Lúcia que nos mergulha num torvelinho de sensações, ideias, pesadelos, imagens claustrofóbicas:

acordou de noite e disse que sufocava

que não conseguia respirar que uma angústia dentro rasgava o pulmão as vértebras

não adiantava aquele remédio aquele leito ela sabia que na hora chegada

do dia que deus tinha determinado dentro da grande língua da terra ela teria que entrar

Neste poema, temos uma chave da poesia da Vera Lúcia de Oliveira: o terror e a beleza da vida e da morte. E, como consequência, todo este derramar-se contido para dentro do horror da existência. Parece que Vera tem seus antídotos nas palavras:

tem palavras que têm cicatrizes a palavra apego, a palavra parto a palavra tempo

dentro elas são de madeira dentro elas se impregnam quando a chuva bate na janela penetra os poros

A palavra salva, ou, pelo menos,  manifesta nas coisas do cotidiano e do mundo a consciência humana, que observa, pensa, e cria. O humano se dimensiona na categoria da palavra, que é como um parto, um nascimento. Cada vez que o poeta se manifesta, uma realidade possível acontece: é o poema.

E onde está a menina de quem vínhamos falando desde o início da leitura dos poemas? A que abre veredas de voos de esperança diante da dura realidade? Onde a poeta encontra a unidade entre o que desaparece na voragem do tempo e o que permanece na imagem/poema? Aqui, eu a encontro:

menina eu penetrava no coração das sementes e olhava o mundo por baixo das raízes penetrava nos ramos altos das mangueiras

por dentro da polpa de um fruto maduro  penetrava em tudo o que é coisa

que gostava de ser visitada por minha mão e minha  alma de  bicho

José Eduardo Degrazia

"Lançamento" dell'antologia al 1° Simposio Internazionale "Literatura, Linguagem e Mídia - Convergências e Cenários" - UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul), Santa Cruz - RS/Brasil, 18 agosto 2015

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(by Claudio Maccherani)