Poesia & Poesia
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Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"o múscolo amargo do mundo" - Vera Lúcia de Oliveira, 2014

o músculo amargo do mundo


Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Escrituras Editora, São Paulo, agosto 2014
ISBN 978-85-7531-628-3, 13.5x20 cm, 88 pag
© Vera Lúcia de Oliveira

postfazione di Ivan Marques

foto di copertina di Claudio Maccherani

 
Selezione di poesie :
aquela cidade comia a gente pelo intestino
o dor entra no mundo - roupa a gente lava de raiva  
criança só sabe pedir - Dona Benta e Seu Benedito 
esse cão que me segue

 

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"Morte e Vida Severina" - Chico Buarque de Hollanda, 1966

 

Aos amigos Donizete Galvão e Eduardo Dall'Alba (in memoriam),
companheiros de poesia e vida, generosos e sempre presentes dentro de mim.

aquela cidade comia a gente pelo intestino
aquela cidade tinha boca para devorar o mundo todo de onde vieira
aquela cidade tinha fome que não se saciava, ele ago
ra para alimentá-la

dera para atravessar as noites num farol vendo os carros implorando os carros

a dor entra no mundo
entra de abrupto
se instala no múscolo
e toda vida vira em volta
desse ponto
minúscolo
roupa a gente lava de raiva
passa com raiva
entrega com raiva
vida a gente leva com raiva
passa com raiva
entrega com raiva

criança só sabe pedir
a única coisa que criança sabe fazer
alêm de pedir é chorar de fome
Dona Benta e Seu Benedito
andavam un na frente de outro
anos sempre assim, um parece
chegando sem nunca encontrar
o outro

esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é  meu dono

O realismo poético de Vera Lúcia de Oliveira

 

O samba é filho da dor.
Caetano Veloso   

 

Músculo, minúsculo, crepúsculo. Esses três vocábulos diminutivos, como se fossem bússolas ou faróis, aparecem de modo destacado nesta coletânea de poemas e estão ligados ao cerne da obra lírica de Vera Lúcia de Oliveira. Sempre fiel a si mesma, a poeta costuma direcionar os olhos para o que é vivo, inquieto, pulsante; para os temas corriqueiros da "vida menor", como escreveu Carlos Drummond de Andrade em A rosa do povo; para um mundo dissolvido em sombras, isto é, cheio de misérias e desfalcado de esperanças - mundo observado de perto, a partir de um ponto de vista generoso, mas sobretudo lúcido e pessimista.

(...)

A coletânea é composta, como de hábito, por poemas muito curtos (setenta ao todo), possuindo em média cinco ou seis versos (o maior contém apenas doze). No mais breve de todos, constituído de um único e espichado verso, diz a poeta: "nasceu foi para mirar o miolo da coisa virar em volta da coisa atracar na coisa". Está claro que ela não fala apenas de si mesma, mas define, por extensão, o ser da própria poesia. Embora seja confundida tantas vezes com escapismo ou fuga do real, sua ligação é sempre com o concreto, seu desejo é o de flagrar "o segredo das coisas". A exemplo de outros grandes poetas de nossa tradição moderna, o lirismo de Vera Lúcia tem raízes no cotidiano, de onde ela extrai seus pequenos enigmas.

(...)


cipressi toscani (foto Claudio Maccherani
, 2014)

Com efeito, nessa poesia contaminada por intenso "sentimento do mundo" (para citar mais uma vez Drummond), é notável a coerência entre fundo e forma. À temática rebaixada do cotidiano, corresponde uma linguagem simples, de forte prosaísmo, cheia de marcas de oralidade. A repetição que ocorre em tantos poemas, numa espécie de cantilena sem fim, é trabalhada, ao mesmo tempo, como imitação da fala e como recurso poético e musical.

(...)

Na obra poética de Vera Lúcia de Oliveira, lugar de participação e conhecimento, canto de ternura e também de asperezas, o que prevalece é esse agudo senso do real. Nenhum escapismo, nenhuma transcendência, nenhuma inconsciência. Como a dor, a poesia é um modo de sentir e apalpar o dentro da vida - nas palavras de Mário, a "grandeza de ser e de viver".

Ivan Marques

Recensioni:; Alexandre Bonfim, Diário da Manhã, Goiás, setembro 2014; Albano Martins, Fili d'aquilone, gen/mar 2015, Adelto Gonçalves, Das Letras, São Paulo, 17/03/2015, Carlos Machado, "O músculo amargo do mundo", Poesia.net n.341, Saõ Paulo, 14/10/2015, Roberto Bozzetti, Passages de Paris 13 (2016), Lee Flôres, in una intervista di Jean Albuquerque in Margem Cultural, medium.com, 17/05/2017

Recensioni nel sito >>

"Lançamento" del libro e "sarau poetico" in ricordo di Donizete Galvão presso la Livraria Martins Fontes Paulista, Avenida Paulista 509, São Paulo, 20 agosto 2014

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(by Claudio Maccherani)