Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"a poesia é um estado de transe"
Vera Lúcia de Oliveira, 2010

A Donizete Galvão, Carlos Machado e Sonia Barros,
pela gentileza e patientia de serem os primeiros
leitores dos meus livros

a poesia é um estado de transe

 

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

 

Portal Editora, São Paulo, 2010
ISBN 978-85-63550-07-1, 14x21 cm, 64 pag
imagens de Jeferson de Camargo
© Vera Lúcia de Oliveira
 

Seleção de poemas :
A poesia é um estado de transe Dentro
Tem palavras - A massa
O coração das sementes - El corazón de las semillas

Per l'acquisto del libro: Portal Editora
Rua Domingos de Morais, 1039, conj.2
Vila Mariana - São Paulo - SP - Cep 04009-002
tel: (11) 5083-3090
E- mail: contato@portaleditora.com.br
Sito internet: http://www.portaleditora.com.br

 

"Toccata e fuga in re minore" - Johann Sebastian Bach

 

A poesia é um estado de transe

a poesia é um estado de transe
a poesia é um estado com Deus
quando tem hora em que Deus nos visita
a casa se enche de tudo quanto
Deus carrega consigo no seu útero

Dentro

só dentro me placo
só no denso posso aquietar-me
ando pelas ruas como alguém
que perdeu um porto
em qualquer lugar que esteja
estou como tocada por uma
vontade de penetrar no osso
de tudo o que Deus gerou

Tem palavras

tem palavras que têm cicatrizes
a palavra apego, a palavra parto
a palavra tempo
dentro elas são de madeira
dentro elas se impregnam
quando a chuva bate na janela
penetra os poros
A massa

o pai conhece a casa
conhece cada degrau e tábua de assoalho
cada tijolo que ele mesmo assentou, cada
gemido de tramelas, cada piado de alma
que ele deixou habitar entre os espaços
e pregas da massa de concreto

O coração das sementes

menina eu penetrava no coração das sementes
e olhava o mundo por baixo das raízes
penetrava nos ramos altos das mangueiras
por dentro da polpa de um fruto maduro
penetrava em tudo o que é coisa
que gostava de ser visitada
por minha mão e minha
alma de bicho
El corazón de las semillas

de niña yo penetraba en el corazón de las semillas
y miraba el mundo por abajo de las raíces
penetraba en las ramas altas de los mangos
dentro de la pulpa de un fruto maduro
penetraba en toda cosa
a la que le gustaba ser visitada
por mi mano y mi
alma de bicho
(versione in spagnolo di Marta Spagnuolo)

O transe de que falam os poemas de Vera Lúcia de Oliveira não é o da tradicional ascese religiosa, ou de uma fuga pacificadora da realidade, mas, ao contrário, nasce da relação intensa com o vivido e se consolida no ”olhar por baixo das raízes”. Essa visão atenta para os detalhes do cotidiano, para o que se esconde nas dobras da linguagem, para o interdito nas relações humanas, revela as sutilezas de uma dicção arrojada e questionadora das asperezas que nos prendem às circunstâncias do tempo histórico, tantas vezes brutal e mesquinho. 

A procura da palavra ”fendida no cerne/ do seu pisar” e que ”arde dentro da boca” nos arrebata para a materialidade inegociável de ser e estar aqui, participando de cada mínima experiência como portadora de alguma epifania oculta. O poema, muitas vezes, encarna o processo desvelador desse universo de sentidos que o moto contínuo do real torna opaco, mascara e dilui. Por essa razão, o gesto do poeta pode ser, entre outras possibilidades, ”entrar na polpa do fruto maduro”, ou reordenar ”o mundo da casa/ à nossa imagem e solidão”. 

Espécie de liturgia mundana, os poemas de Vera Lúcia desritualizam a ideia de sagrado e projetam uma figura divina que dialoga com a dor e com as imperfeições que nos conformam, mesmo quando parecemos seguros e no controle da situação. Não há condescendência para a imagem de Deus, nem salvação que não parta da extrema consciência da fragilidade. Na visão do poeta, pode ser o transe que ”Deus carrega consigo em seu útero” - fruto de tudo que se acumula ao longo da história da cada um. A divindade não sacia a fome de conhecimento, mas é parte dela. 


Vera (foto Claudio Maccherani
, 1997)

Os poemas interrogam até o sentimento amoroso, para muitos o reduto de algo intocado, considerando-o ”a maior causa de morte/ da humanidade”. Paradoxalmente, atração e repulsa se completam numa correlação de forças que nos arrastam para o mais íntimo de nossa humanidade, como a graça e o ódio. 

A poesia não tem, e não deve ter, respostas para nossas angústias; sua função é a de investigar tudo que escapa ao óbvio, ao já consagrado, ao que tentamos simplificar por covardia ou fraqueza. Vera Lúcia sabe que as palavras ”têm cicatrizes” e que lhe cabe estudá-las sem trégua e pacientemente, porque estão ali as marcas do que somos e do que imaginamos ser, nos limites do dizível. 

Reynaldo Damazio 

Lançamento

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Recensioni: Ronaldo Cagiano, 20/09/2010; Rudinei Borges, in "Coluna Crítica", rivista web, 14/11/2010 e in "Primeiro Esboço", articoli web, 14/11/2010.

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(by Claudio Maccherani )