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Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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Note critiche su

a poesia é um estado de transe

di Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Portal Editora, São Paulo, 2010

Testi critici di  Ronaldo Cagiano, Rudinei Borges

"a poesia é um estado de transe"

Ronaldo Cagiano

Gostei imensamente da sua poesia. Percebi que, ao contrário do que tenho visto na poesia contemporânea brasileira, em que autores estão mais preocupados com os espasmos formais, o seu trabalho transita na direção contrária, procurando estabelecer uma compreensão crítica e reflexiva da nossa condição e também estender uma ponte, fazer um diálogo com a própria a arte, de modo que o leitor possa entender a sua função nesse mundo tão coisificado e banalizado. O eu lírico se junta a uma mirada crítica, para lançar novas luzes sobre o mundo que nos rodeia. O que me chama a atenção na sua poesia, também, é que ela prescinde de qualquer excesso ou carência. Nada falta ou sobra. A economia de meios no plano da construção formal nos faz antever que a depuração do seu estilo abriga uma grande sofisticação. Poesia que diz muito com o mínimo de recursos;  com a simplicidade ceciliana da forma, sem prejuízo da densidade dos temas que você quer comunicar.

 

(Ronaldo Cagiano, comunicazione personale del 20/09/2010)

Rudinei Borges

"A poesia é um estado de luto ou o transe de Vera Lúcia de Oliveira"

A poesia é um estado de transe, livro de Vera Lúcia de Oliveira, lançado pela Portal editora, concerne num ritual, quase abrupto, de luto – agonia pela perda. O título despista o leitor, mas já nas primeiras linhas o chamariz da palavra transe, termo tão em voga,  é ofuscado por versos como: “a casa se enche de tudo quanto/Deus carrega consigo no seu útero”. A pretensa espiritualidade é logo banida, porque a questão central da poesia de Vera Lúcia é a morte, o amor, o ódio, o mundo e a vida. Trata-se, sem exageros, de uma bíblia concisa. A bíblia das dores do mundo – para lembrar Schopenhauer. A poeta engana a todos. A leveza e a precisão de suas palavras parecem esconder as mazelas mais cruas de sua denúncia: “(…) uma angústia/dentro rasgava o pulmão”. Aliás, Vera Lúcia é uma poeta cruel e destemida. E seu livro, para início de conversa, é uma lição de maturidade poética capaz de arrebatar até mesmo o leitor mais desatento. Ninguém sai o mesmo depois de deparar-se com confissões como aquela que inicia o poema Surdez: “tive duas mãos e não amei nenhuma”. Erra quem entender a palavra confissão como um aglomerado de desafetos apresentado em versos. O caráter confessional da poesia de Lúcia de Oliveira está pautado num alcance existencial-filosófico considerável. E nisto, encontra-se o vai e vem trabalhoso da engrenagem poética. A poeta soube cortar palavras e diz muito com uma economia só vista em Paulo Leminski e Adélia Prado. O menor poema tem três versos e o maior apenas vinte. O título do menor, Silêncio, talvez elucide as pretensões da poeta nascida em Cândido Moura, mas que hoje reside na Itália. As pausas que compõem a poesia de Vera Lúcia lembram o silêncio das meditações budistas, do sono e, em especial, da morte. A poeta de versos curtos é capaz de provocar sugestões inúmeras: “se peso sou/se não peso ninguém/percebe que sou”. Ou “não posso parar/sou como a corda/de um varal que a noite/tange retesa solta/até que retorne/à dimensão original”. O mistério é o cotidiano. A vida é a soma das pequenezas: “o mistério está na aragem/não carrega vozes/o mistério está na cozinha/nas panelas limpas/nas tampas penduradas nas hastes/na goteira incessante da pia/o mistério está na respiração macia/de cada coisa em seu nicho/esperando a hora de ser útil”. O silêncio – mudez e surdez – compreende o mistério anunciado em A poesia é um estado de transe. Trata-se do silêncio do subsolo, onde residem as raízes, as sementes e os corpos mortos. Mas é também o silêncio do útero, local onde os filhos são gerados sem que pedissem às mães – o silêncio da noite, das sombras e, por final, da própria escuridão.

Entrar no útero é crescer lá dentro

A palavra útero tem dimensão peculiar e está associada a palavra dentro, que aparece vezes diversas como se configurasse uma oração, uma denúncia – como se houvesse necessidade urgente de compreensão. “Só dentro me placo” é o que escreve a poeta para referir-se à vontade de penetrar no osso de tudo o que Deus gerou. Entretanto, dentro também é a morte, grande útero que finda a vida: “ela sabia que na hora chegada/do dia que Deus tinha determinado/dentro da grande língua da terra/ela teria que entrar”. Dentro designa as palavras que têm cicatrizes – apego, parto e tempo: “dentro elas são de madeira/dentro elas se impregnam”. Em oposição à palavra fora, dentro é o lugar de encontro, onde podemos ouvir a nós mesmos. Fora é a residência da perda e do barulho. Em O coração das sementes, um dos poemas mais interessantes do livro, a poeta vai à profundeza da vida, através das árvores, sugerindo encontrar o sentido verdadeiro para a existência. Ela afirma: “por dentro da polpa de um fruto maduro/penetrava em tudo o que é coisa”. Porém, a conclusão da poeta não deixa escapar a sua lucidez que em alguns momentos confunde-se com desalento. “(…) dentro da vida/há morte” ou a constatação “(…) o moinho dentro/ralando um milho sem piedade”. Dentro, na poesia de Vera Lúcia, concerne em “gemer a fome cuspir a raiva/de ter sido gerado não do jeito/que ele tinha sonhado mas do jeito/que o tinham feito”. É o “antro de uma caldeira/que arde dentro da boca/as lascas de uma ferida”.

Sua fome é minha fome

Noutros momentos, a poeta afirma haver uma espécie de fome que brama dentro noite e dia. Uma fome inominável que não se sabe dizer o que é. Que fome é esta? O que Deus carrega consigo no útero? Que é esta coisa que falta que as pessoas não sabem quando perderam? Que é o grande abarrotamento no grande silêncio de fora? Trata-se do desejo de raspar a casca da terra por dentro das sementes, de penetrar em tudo o que é coisa e, como Aleijadinho, recriar o mundo. É preciso gerar nas entranhas a razão para o voo, lembra a poeta. No útero, subterrâneo onde reina a morte, reina também a vida. A liberdade é construção humana. O ser humano precisa vagar no arcano até perceber a proporção correta de cada signo que revela o mistério, como propõem os versos de Há uns que são engenheiros.

Rosnar para o mundo

O lamento da fome e a impossibilidade de gerar razões para o voo levam a poeta a compreender o mundo com um grau elevado de pessimismo. No poema O verdugo, Deus é aquele que castiga a poeta desde a sua vinda ao mundo. Aliás, o mundo não dá trégua. Sofre-se desde o princípio. Deus e o mundo parecem configurar a mesma pessoa ou questão, a mesma decadência: “(…) passo as noites ouvindo/um ruído de traças comendo o mundo”. No poema O Aleijadinho, a poeta indaga: “qual mutilação nossa/espelha Deus?”. Já em À nossa imagem, Vera Lúcia de Oliveira admite o seu desencanto: “chove miudinho/o mundo está lavado/em toda sua dimensão/os vidros se embaçam/a hora espera o arco-íris/enquanto encerro a casa/com obstinação/retiro a louça do lugar/reordeno o mundo da casa/à nossa imagem e solidão”. Diante deste quadro, resta acreditar nas palavras consoladoras do poema Grão: “mas saíste do amor de uma noite/em que Deus habitou meu útero”. Parece haver alguma chance para Deus e o mundo no universo sôfrego de A poesia é um estado de transe.

O amor é a maior causa de morte

Em suas teorias sobre o amor, a poeta dispara: “o amor é a maior causa de morte”. E explica a existência de quatro tipos de amor: 1. o dado de graça; 2. o dado de raiva; 3. o dado de ódio; 4. o não dado. Este último, a falta de amor,  é a maior causa de morte da humanidade. No poema Esmola, a poeta que cresceu na cidade de Assis, em São Paulo, define a relação paradoxal entre ódio e amor. E afirma: “só o ódio é um sentimento humano”, porque para ela “o amor não deixa rastro, o amor não/se imprime à sangue na memória”. E outra vez põe Deus/mundo em questão: “o ódio é um fogo que a gente alimenta/com o nosso desejo de ser um pouco como Deus/e não ter que esmolar o amor para sobreviver”. Em outros poemas, o verbo amar aparece conjugado no passado: “amei você com fome de luz” e “amava (…) o rendilhado das frestas na penumbra”. Não há nada que “sobeja do que já foi esquecido”. O amor não interessa mais. Nem Deus. Nem o mundo. O amor é aquilo que gera a fome que rói e entristece a poeta.

Pisar o chão como num luto

Tudo volta à terra, insiste a poeta paulistana. Não há saída. “Sei que o corpo pede terra”.  Com o anúncio da morte e com a própria morte apoderando-se das coisas e das pessoas, mostrando-se maior que Deus e o mundo, resta carregar o luto, cultivá-lo em alguma parte do corpo. É preciso saber falar com a morte, amar com a vida. É preciso encarar “o monótono jeito de carregar um luto”, uma perda, porque – por vezes – as pessoas veem nos dizer que somos nós que estamos mortos, como no poema Fiel. Por final, resta matutar para onde vão as pessoas engolidas pelo escuro das linhas quadriculadas. É possível darmos com a resposta do pai da poeta, no último poema de A poesia é um estado de transe: “viraram pássaros (…) iam aprender no voo/o resto da geometria”. As pessoas morrem porque não sabem voar.

(Rudinei Borges, in Coluna Crítica, rivista web, 14/11/2010
http://colunacritica.wordpress.com/2010/11/14/a-poesia-e-um-estado-de-luto/
in Primeiro Esboço, articoli web, 14/11/2010
http://primeiroesboco.wordpress.com/2010/11/14/a-poesia-e-um-estado-de-luto-ou-o-transe-de-vera-lucia-de-oliveira/)
e in Parâmetro, 16/01/2011

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(by Claudio Maccherani )