Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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Note critiche su

Geogrfie d'ombra

di Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

 Fonèma, Venezia, 1989

Testi critici di  José Saramago, Carlos Nejar,Lêdo Ivo, Fábio Lucas, Paolo Ruffilli, Moacyr Scliar, Manuel Ferreira, Oreste Macrí, José Paulo Paes, Manoel de Barros, Antônio Lázaro de Almeida Prado, Adriana Notte, Anna Maria Farabbi, Marige Quirino Marchini, Barbara Spaggiari, Raquel Villardi

"Geografie d'ombra"

José Saramago

"Não sei que influências recebeu, não sou capaz de identificar ecos doutras vozes na sua voz própria, e confesso que recebo destes poemas um som de autenticidade surpreendente."

(José Saramago, comunicazione personle, in Pedaços/Pezzi, 1992)

Carlos Nejar

"Que descoberta feliz o seu Geografie d'Ombra! Comoveu-me. Sabe doer e transmudar entre gestos e coisas. A palavra é humilde e forte, transborda do cotidiano e pega o leitor com imagens lapidares e simples: 'as folhas que piso / perfuram-me...', 'amanheço todo o dia nua e estreita / como uma rua de comércio' ..."

(Carlos Nejar, in Istrumento Critico - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, Brasile, 11/1999, n.2, p.222)

Lêdo Ivo

"Muito obrigado pela sua aparição, que muito me surpreendeu e alegrou. O "Geografia de sombra" é também uma geografia da luz e do sol: nela estão ainda presentes o país e a língua que a sua permanência na Itália aspira a seqüestrar (...) É, a sua, uma voz poética partida, ou repartida, ou mesmo dilacerada. Enfim, não é como estrangeira que você me visita com o seu belo livro e sua vibrante confissão."

(Lêdo Ivo,Istrumento Critico - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, Brasile, 11/1999, n.2, p.222)

Fàbio Lucas

"Geografie d'Ombra foi uma revelação para mim. Versos comedidos, poemas de alta relevância. A autora sabe transformar a vivência das emoções em substância poética. Universaliza o drama da existência por meio de palavras escolhidas, de grande comunicação. "Tardes de aula", por exemplo, que bela composição. Em "O mar e o brejo" temos uma constelação de imagens fortes, movidas por sondagens metafísicas. "Pedaços" testemunham um sentimento de insegurança e fragmentação."

(Fábio Lucas, in Istrumento Critico - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, Brasile, 11/1999, n.2, p.222)

Paolo Ruffilli

"Ho letto le poesie di Geografie d'Ombra con vivo interesse, affascinato anche dalle segrete rispondenze tra i testi in italiano e quelli in portoghese, in un rispecchiamento di suoni e di tonalità. La raccolta è buona e testimonia di un'autentica vocazione poetica. Mi ha colpito soprattutto quell'attraversare continuo, dentro e fuori, avanti e indietro la vita dell'uomo; quasi correndo sui binari delle "ferrovie dell'anima" - come dice con piglio una poesia."

(Paolo Ruffilli, quarta di copertina in Pedaços/Pezzi, Editrice Grafica L'Etruria, Cortona, Italia, 1992)

Moacyr Scliar

"Geografie d'Ombra revelou-me uma grande poeta. De fato, fiquei entusiasmado (arrebatado seria o têrmo melhor) pela força e a beleza de poemas como "Pequeno pintor" ou "Profano as coisas", para citar só dois exemplos (e em português; aliás, Vera é bilingüe, com absoluta proficiência em ambos os idiomas). Espero que tanto o público brasileiro como o italiano tomem logo conhecimento desta obra, para a qual prevejo um grande futuro"

(Moacyr Scliar, in Istrumento Critico - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, Brasile, 11/1999, n.2, p.223)

Manuel Ferreira

"Li deliciado o livro de poemas Geografie d'Ombra, vagarosamente desfolhando-o e deixando-me penetrar do que ele mais privilegia: o amor, a ternura, um sofrimento, uma certa dilaceração, diria saudade, nostalgia, tormento, a maturidade das dores e dos sabores das coisas, das pessoas, envolvidas no quotidiano do Poeta, no quotidiano de nós todos. Há nesta poesia uma persistência desencantada, e a necessidade do reencontro poético com a solidão, com as ressonâncias nocturnas da vida.
A própria distribuição material dos poemas, como que rendilhada, parece conter ou traçar um ritmo que marca a intensidade dos silêncios, das tristezas, das fadigas, das dores. Metáforas e imagens ainda que mais dão a riqueza a esta poesia cheia de encanto e lucidez."

(Manuel Ferreira, quarta di copertina in Pedaços/Pezzi, Editrice Grafica L'Etruria, Cortona, Italia, 1992)

Oreste Macrí

"Geografie d'Ombra: poesia estremamente delicata, ma essenziale e rigorosa nel suo accento di verità, coincidendo musica verbale e sentimento nella più pura tradizione simbolista-intimista. L'autrice non tenta mai di fingere la vena lirico-espressiva, e questa giustezza d'equivalenza mi ha sorpreso: sintonia natura-uomo, identità ricorrente morte-vita, pathos del seme e rientro all'origine, lacerazione e frantumazione dell'io che confida solo in quel che è per sé, una traccia vera della vita indecifrata... Bellissimo il dittico dei vivi e dei morti di Portovenere, e così Notas.

(Oreste Macrí, quarta di copertina in Pedaços/Pezzi, Editrice Grafica L'Etruria, Cortona, Italia, 1992)

José Paulo Paes

"Li o seu livro com interesse e com prazer. Nele reencontrei a dicção a que já me habituara em Geografie d’ombra, só que em mais de um passo aprofundada no seu empenho de perquirição do mundo e enriquecida de novos harmônicos, se cabe a expressão. Alguns poemas me tocaram particularmente pela sua lapidariedade de fatura e pelo seu poder de convencimento, Entre eles eu destacaria "O filho", impiedoso na sua justeza; "Pomba da paz", não menos impiedoso; "Experimento falho", fino aproveitamento irônico da parlenda; "Flores de finados", de atmosfera sabiamente construída por lances em crescendo; "Negação", tão bem expressivo da aporia de dizer o indizível em que se dilacera o poeta; "Roma", um severo retrato urbano que me sensibilizou porque eu de lá trazia, ainda frescas, impressões semelhantes; o primorosamente ungarettiano "Poesia". O arrolamento de elenco tão restrito não quer dizer que a ele se tivesse limitado meu interesse. Mas é que os poetas são idiossincráticos por natureza e por força do mesmo ofício. Daí que tendem a apegar-se àquilo que, nos outros, os prolonga como consecuções a que eles não tinham ainda chegado."

(José Paulo Paes, in Istrumento Critico - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, Brasile, 11/1999, n.2, p.223)

Manoel de Barros

"Parece que todos os poetas muito desencontrados ficam entre a manhã e a noite. Ficam na tarde. É da tarde que a sua poesia mais gosta. Talvez, porque ainda no início, a tarde componha melhor os nossos desencontros: "Sou medieval e escura / por isso prefiro a tarde". Também, na linguagem, a antítese me parece outro recurso que concilia os desencontros: "às vezes desejo ser cega para penetrar melhor tudo". Pensei nisso lendo a sua bela poesia. Quero agradecer seus poemas que já me enriqueceram."

(Manoel de Barros, in Istrumento Critico - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, Brasile, 11/1999, n.2, p.223)

Antonio Lázaro de Almeida Prado

"Vera Lux: Vera Lúcia"

Necessarissima, a poesia colhe a vida, em sua plenitude e riquissima valência dialética.

A poesia soma. A poesia integra. Opõe-se às excludencias. As adversativas. O poema é sempre um ponto de encontro. Uma dialética somatória, agindo pelo largo aditivo, acoplador e plurivalente.

Não espanta, pois, que essa sensibilissima poetisa ássisense, Vera Lúcia de Oliveira reitere em sua trajetória poetica mavarlhosa riqueza. da vida, que se derrama de sua cepa, podada, contida e generosa, mas não indolor...

Espanta menos que ela, cuja lúcida poesia faz jus a seu nome (Vera Lúcia - Vera Lux) nos brinde agora com esse misto de luz e sombras, nesse precioso volume. Geografie d'Ombra, com importante Prefácio de Luciana Stegagno Picchio, editado por Fonéma Edizioni, em 1989, e que teve a gentileza de oferecer-nos.

Tive o privilégio de ler as primeiras provas poéticas de Vera Lúcia. De pronto, pude perceber sua admiravel força poetica, emoldurada por vezes por um certo apêndice de palavras um pouco desbordantes.

Para honrar a confiança que depositava em mime confiei-lhe a minha certeza de que ela iria chegar a uma economia de meios expressivos, compativel com a qualidade de seu dom poético.

Alegrou-me, em 1983, constatar que não me equivocara. Ao entregar-me ao lúcido prazer de análise de A Porta Range no Fim do Corredor, deparar-me com uma poesia de superior qualidade, que chegará já, numa poetisa iniciante, a um seguro manejo e dominio dos meios expressivos, sem o mínimo prejuízo de uma refinada sensibilidade, que nessa poetisa é um traço dominante.

Agora redobram-se meu prazer e minha alegria as duas vertentes de seu atual volume: Dopo Ia morte (14 poemas em italiano) e La Poesia si lacera (16 poemas em língua portuguesa com reflexo ao espelho, em italiano).

Q título parece-me, feliz. Com efeito, a superior discrição dessa poetisa assisense e a segura percepção dos meandros da vida e de sua delicada alma solidária projetam um claro-escuro, qual tela eficaz sobre que se desenham a lucidez, o brilho, a (quase diríamos) incandescência luminosa e a inispensável imersão no "noche oscura", em que a arcana fertilidade da conivência humana com o mistério, com o enigma, com a espantosa gratuidade do viver e do fruir/sofrer o Tempo e seu complementar convexo o Eterno, passando pelo vestíbulo da consunção.

Sinto nessa poesia uma força matriz dialética: um sabor de vida, convivente com uma sofrida pietas.

Sinto alegria em lágrimas contidas, Sinto uma pungente ascesse da solidão, operante como um exorcismo do mera-mente individual. Sinto; em suma, um lirismo coral, um lirismo solidário, que nos encanta, pela vida que desborda em promessa de' mais vida e nos dói pela aguda sintonia com a contrapartida. de consunção e me desgaste registrados na peregrinação humana.

Desta nossa comum cidade de Assis envio à assisense cidadã do mundo Vera Lúcia de Oliveira o mais sincero aplauso.

E agradeço-lhe a gentileza da remessa de Geografia d'Ombra, que me permite, encantado, retomar com ela (a distância é uma ilusão...) o precioso convivio do diálogo, que recorda Fray  Luis de León: "Como decíamos ayer"...

Creio que Assis, tão necessitada de arte e poesia, deve agradecer a superior poesia dessa poetisa assisense brilhante e discreta: Vera Lucia de Oliveira.

Com ela aprendemos todos a força construtiva do amor e a fútil inutilidade do malquerer e da pequenez da alma,..

Lições admiráveis de unia poetisa assisense de padrão universal.

(Antonio Lázaro de Almeida, Prado Vera Lux: Vera Lúcia in Voz da Terra, Assis, Brasile, 3/2/1990, p.2)

Adriana Notte

"La purità poetica di Vera Lucia De Oliveira"

Infinite parole abbiamo a disposizione, dalle più ovvie alle più astruse, per tentare valutazioni e analisi critiche.

Ogni prefazione o recensione poetica, trova i modi più funamboleschi per giustificare ed esaltare; e indurre a scoprire inesistenti vette laddove, in vari casi, non c'è altro che una desolante pianura. C'è ancora un modo per "far critica" o "recensione": mettere a nudo (con quanta compiacente impudicizia del poeta - non si può dire) i lati più riposti, i più zuccherosi intimismi, le pseudo angosce sentimentaloidi dell'io, di questo maledettissimo ingannevole io che fa credere ai più d'esser poeti. Infine esiste un tipo di valutazione universale: quella che il poeta stesso, con il suo dire, conduce a scoprire: la parola-segno, setacciata dai cultural-virtuosism i, dalle grottesche ampollosità, dai miagolìi stucchevoli e dalle mode d'epoca. Si dirvela allora la matrice storica e la proiezione culturale: il "segno del tempo".

La poesia è la voce di un popolo, il dramma e la conquista, il caso limite: è la costruzione di nuova mentalità. La figura del poeta, il suo sentire, la sua esaltazione e il suo dramma, si fondono nel magma incandescente di un secolo - e ne rivelano l'essere: la letturadella poesia, quindi, uguale a lettura dell'essere, sollecitazione ad "essere".

Si è fatta consuetudine oggi il parlare e scrivere sulla necessità storica della poesia, in contrapposizione alla esuberante ondata del consumismo. Il fenomeno cela la paura d'essere schiacciati negli enormi meccanismi del potere economico. È una odiosa paura: la poesia non deve "difendersi". Essa è unicamente VOCE che afferma - in una libertà assolutamente intangibile. Come tale, potrà "difendere"; mai difendersi.

Tra queste voci, una, libera e coraggiosa, di quel coraggio che viene dall'infanzia dolente di un popolo come quello del Brasile, sta fiorendo in mezzo alla congerie culturale italiana, come una che niente ha da spartire con altri né da guadagnare, ma, semplicemente, dire. E tutto ciò in modo netto, integro, come nette sono le affermazioni di certi bambini o di certi vecchi. Viene in mente la frase di un artista recente: "Sii te stesso in purità e non sarai mai una ripetizione".

Così Vera Lucia De Oliveira si pone, fragile e netta, fanciulla e vecchia insieme, e posa le sue "difese" di una poetica senza compro-messi, dove le parole sono pietre, infisse alla confluenza di due popoli: e la passione brasiliana si raggruma in silenzi; e le luci mediterranee in composta melanconia.

Ma è fuoco sotto amabili ceneri: come se d'improvviso esplodessero da una parola o da una pausa inaspettati lanci pirotecnici. E resti sempre sospeso ad attenderli. È lo sconcertante vezzo del poeta: forzare il lettore a sospendere le parole, una ad una, nel deserto dell'ascolto, e scoprire che in quel vuoto c'è tutto l'universo. Non lo stantio "universo del poeta" (con tutto il rispetto delle profonde istanze dei singoli), ma l'universo-cosmo; quello che ci obbliga a misurarci con l'infinito e l'eterno.

Non citerò quindi, come è consuetudine, versi qua e là enucleati e dimostrativi della esposizione condotta dal relatore. E' la stessa poesia della De Oliveira a "dire".

E occorre "ascoltarla", ora, in una delle sue poesie (in versione italiana e brasiliana) dal suo recente libro "Geografie d'ombra" (Ed. Fonema). Questa, appunto, ci ha suggerito le suesposte considerazioni, donandoci insieme la gioia di scoprire una personalità poetica che sempre più avrà da dire e da sconcertare.

 

MEU PAI

 

Meu pai que conheci quando se conhece a morte

e todas as maos que deixou

 

Eu vivia para imaginar o gesto

esculpir o carinho

e fiquei assim com esse peso de coisa por completar

lista de compras

heranga que nào desemboca

 

àrida como uma enchente

deserta como um campo de milho não semeado

 

MIO PADRE

 

Mio padre che conobbi quando si conosce la morte

e tutte le mani che lasciò

 

Vivevo per immaginare il gesto

scolpire l'affetto

e restai così con questo peso di cosa da completare

lista di spesa

eredità che non sgorga

 

arida come una piena

deserta come un campo di mais non seminato

(Adriana Notte, I luoghi della parola, Rivista “Porto Franco”, Taranto, Italia, anno II, n.6, 11-12 1990, p.22)

Anna Maria Farabbi

"Vera Lucia de Oliveira – Geografie d’ombra"

Si impara la morte in « un paese perpetuo?». Si impara e ogni giorno è una nuova, dura, lezione fino alla consapevolezza di quanto la vita sia attraversata, erosa, tagliata dalla morte. Dentro questa coscienza affonda un'estrema, dolorosa, lacerazione esistenziale da cui, tutta-via, riesce a liberarsi un'acuta sensibilità percettiva. Quasi che solo dopo aver imparato la morte si apprende la vita.

Da questo fondo tematico cresce la breve .antologia poetica dell'autrice brasiliana. Si susseguono. stralci paesaggistici, geografia appunto, composti da segni essenziali. Particolari odori, colori, suoni contrassegnano spicchi di terra tumefatta, vicoli ciechi, marciapiedi impaludati nel silenzio notturno o formi-colanti di strilli, di parole, di clacson. Un filo rosso, sotterraneo accomuna i di-versi luoghi: ciascuno è un mondo definito, un'immagine compiuta, un mosaico di cellule vive colme

di significato metaforico. Una lettura dentro l'altra che rimanda riflessi di impalpabile. lontananza, di solitaria estraneità.

La raccolta è divisa in due sillogi intitolate rispettiva-mente «Dopo la morte» (la morte del padre) e «La poesia si lacera», quest'ultima meditata e scritta in portoghese, lingua madre della poetessa, e affiancata dalla relativa traduzione in italiano. Qui, il verso è più disteso, musicalmente ritmato. L'amarezza espiata, il ricordo di tempi e spazi, ormai conclusi ma febbrili nella memoria, incidono il verso con trascinante sonorità.

Il pregio affascinante di questa «geografia» (dell'anima) è forse proprio quello di essere l'incrocio tra due codici linguistici e due connotazioni culturali.

(Anna Maria Farabbi, "Vera Lucia de Oliveira – Geografie d’ombra", nella rivista "Noi donne", Roma, Italia, 6-7-8/1990, p.14)

Marige Quirino Marchini

"A lingua italiana, uma longa paixão"

(...) Assim foi como transportar-me, para aqueles tempos de minha alvorada interior ter em mãos, através da Rosani Abou Adal, os belos poemas de Vera Lúcia de Oliveira, parte em italiano, parte bilíngüe. Trata-se de que conhece o idioma italiano a fundo, e faz um trabalho rigoroso e disciplinado, deixando transparecer uma delicada sensibilidade para esse jogo poético em duplo código lingüístico" como ressalta a própria autora.

"LA POESIA SI LACERA" – “La poesia dentro di me si lacera/ come quando mio padre potava la vite" (A ,.poesia dói dentro de mim/ como quando meu pai podava a parreira) ou "PEDAÇOS": "Sono in tanti pezzi/ da essere quasi infinita” (Tenho tantos pedaços/ que sou quase infinita). A dor como detonadora de uma cosmovisão: a poeta se dilacera, dilacera-se a linguagem, e desses fragmentos de memórias, sons, vislumbres, amor, pode ser construído o mosaico vivo da poesia.

A poesia de Vera Lúcia de Oliveira é um perene fazer e desfazer, um perene anular-se erefazer-se, um perene confronto entre a vida e a morte, como uma pulsação de mar. Um mar eterno. “La mia poesia non dice nulla/ non dice neanche dove sono le mie dita/ miei occhi/ le mie mani vuote” (A minha poesia não diz nada/ não diz nem aonde estão os meus dedos/ meus olhos/ as minhas mãos paradas). E em contraponto: "Profano as coisas": "Profano as coisas por amor/ crio rachaduras/ invento olhos e palavras/”.

A dolorosa surpresa de "Non c' è quotidianità nella morte" (A morte não é rotineira) e singularmente "Primavera" aqui traduzida: "Nos bosques apagados/ os sinos ceifam o ar frio/ a primavera é uma idéia não criada". Todavia, Primavera no subconsciente poético.

Nessa memória litúrgica que é o livro "GEOGRAFIE D OMBRA", da Vera Lúcia cintila "Tardes de Aula", em que tudo cabe dentro de sua sensibilidade, como um "insight": "tardes de aula/ em que se esvaía a pulsação/ o universo/ se incorporava/ a um pedaço de giz (...) "As vezes se passavam séculos até/ sem que eu desse por mim". A poeta está tão absorta no mundo, sua sensibilidade tão parelha aos sons e à música que flui a seu redor, que só a poesia esgota essa fração de tempo, eterna, em que ela habita fora de si.

E dessa perenidade que se faz a poesia de Vera Lúcia. Que se conquista com o despojamento, a humildade: "L' umiltá è una cosa che fa venire voglia di imparare lo smisurato/ di imparare l'infinito". - "A humildade nos faz sentir vontade de aprender o desmesurado/ de aprender o infinito".

 (Marige Quirino Marchini, "A lingua italiana, uma longa paixão", in Linguagem viva, Brasile, 06/04/1992, p.6)

Barbara Spaggiari

"Uma poetisa brasileira na Itália: Vera Lúcia de Oliveira"

O livro Geografie d’ombra de Vera Lúcia de Oliveira compõe-se de duas secções. Idênticas na aparência, de quatorze poesias cada urna. (Dopo la morte e La poesia si lacera são os respectivos subtítulos), Aparente identidade esconde na realidade uma assimetria notável entre a primeira partem inteiramente em italiano, e a segunda, que justapõe uma versão portuguesa e uma versão italiana a cada um dos catorze textos (dobrando assim de catorze para vinte e oito o número das poesias ali presentes).

Uma outra assimetria é, diga-mos, cronológica: a primeira secção, composta directamente em italiano, reúne versos recentes (escritos entre 1986 e 1988, como revela a «Nota dell'autore»). A segunda secção é, ao contrário, um a espécie de auto-antologia, na qual a autora reúne poemas escritos (isto é, que nasceram) em português e já publicados, entre 1983 e 1986, repropondo-os com uma versão italiana ao lado.

Um dos aspectos mais característicos da obra de Vera Lúcia é, portanto, o _bilinguismo. Ora, tecnicamente, por bilinguismo se entende o uso corrente (ou seja, continuado) de duas línguas em condições de paridade: paridade na competence linguística do falante, a paridade no prestígio cultural e no emprego social. Em campo literário, e particularmente poético, fala-sede bilinguismo quando um poeta escreve em duas línguas diversas alternando-as indiferentemente (mesmo se numa experiência limitada no tempo, como, por exemplo, as poesias inglesas de Fernando Pessoa); ou então, e se verifica com mais frequência, o poeta se transforma em tradutor de si mesmo. E aqui tocamos um outro capítulo extrem amante fascinante, ou seja, o problema da tradução poética, privilegiando um caso par-ti cul aríssimo: aquele no qual autor e tradutor são a mesma pessoa.

Pois bem, em Vera Lúcia de Oliveira os dois aspectos do bilinguis'mo poético convivem e se acrescentam dentro do mesmo volume. Sinal - pelo menos no momento da elaboração de Geografie d' ombra - de um relacionamento com a língua ainda não solucionado, difícil, sofrido.

Não é por acaso que Vera, escolhe o italiano para as poesias compostas depois da morte do pai: é um meio para arrefecer a matéria autobiográfica através do filtro de uma língua diversa, alheia a si mesma. O italiano funciona aqui como uma espécie de barreira, dique que aprofunda e sublinha, cm modo inequívoco, o destaque do grumo ainda doloroso da expêriencia pessoal.

O proprio facto de Vera sentir a necessidade, na segunda seção, de traduzir poesias originariamente escritasem português, escolhendoas dentre aquelas da sua primeira produção (os dois livros A porta range no fim do corredor, São Paulo, 1983, Scortecci Editor; e Lugar de espera, inédito corno livro), denuncia o esforço em recuperar o passado, ou uma parte pelo menos do passado; aquela justamente que pode ser revivida em urna outra língua, que se pode adequar ao novo instrumento de comunicação.

 

A tensão entre dois pólos

 

Desenraizada do seu ambiente (São Paulo e o Brasil), e transplantada em um outro (Perugia e a Itália), a autora deixa transparecer nos versos a contínua tensão entre os dois pólos da sua experiência de um lado o passado, o país natal, a língua matem a. os cenários rurais de onde emerge a figura paterna (e o pai é a morte, é a vida que se perde). Do outro o presente, o país de adopção, a nova língua adquirida, a existência da cidade como cenário para episódios de vida estranhada.

Os mais explêndidos versos de Lugar de espera exprimem mesmo este estado de suspensão dolorosa entre um passado, do qual já se consumou o destaque, e uma realidade actual que é ainda em parte estranha, hostil, não perfeitamente assimilada.

O mal-estar reflecte-se na língua poética: a autora entra em crise: «estava escrevendo – diz - em uma língua, mas era em outra que eu me comunicava com as pessoas ao meu redor. A poesia, que para mim sempre foi um meio de comunicação, acabou virando linguagem completamente desligada do contexto dentro do qual vivia. A poesia já é, por natureza, tuna linguagem rarefeita, que se distingue daquela usada cotidianamente. No meu caso, porem, estava usando não só um código diferente, poético, mas um código diferem numalíngua divasa. Por muitos meses não consegui escrever. Depois, quando retomei a escritura, com muita surpresa constatei que começaram a nascer simultaneamente poemas em português e em italiano. Comecei também a tentar traduzir alguns textos do português. «Geografie d'ombra» é um pouco o resultado deste percurso».

 

Um estilo simples, cotidiano

 

A nós, fruidores habituais da lírica italiana, as poesias que Vera escreveu em nossa lingua o efeito de uma singular sintese de titulos e inflexões desprovidos de grandiloquência, vagamente pascolianos, com inesperadas (urgências que evocam certos aspectos da sensualidade danunciana. E tudo transcrito num estilo habilmente simples, cotidiano. A sclecção do léxico respeita estes critérios: os campos, as vinhas, os ramos, a tarde, a primavera, perdem a sua banalidade em presença de uma adjectivação violenta e monocórdica (gravida, gonfi, pieni, tumefatti): vida sim, mas vida que explode, promessa de vida que sc. malogra na imagem da natureza que nunca é vista com olhar serena ou indulgente. O amarelo, por exemplo, é a cor mais presente nas primeiras poesias: mas é sempre pálido, frio, nunca um amarelo solar; do mesmo modo os girassóis são secchi, as espigas rotte. E o mundo é inundado de chuva, inchado de água (cf. lnondazione, marmcisce, s'impaluda, sgorga, sgocciola...). Até que, nas páginas finais desta primeira secção, brotam os objectos e as palavras do cotidiano, ligados não mais ao campo, mas à árida tecnologia do ambiente citadino: camion, clacson, pullman, giornale, televisione, (cf. «I polli» e «Quelli del pullman», pp. 14-15), e até «i vetri rotti di una macchina che si schianta centro un'altra» (Dopo Ia morte, p. 21).

Na segunda secção, La poesia si lacera, emerge em cada angulo o mal-estar a incerteza do viver, o relacionamento conflitual com o mundo - ainda sem solução, a didificuldade em inserir-se, a falta do aceitação da realidade passada e presente. Resíduos de episódios biográficos, que ainda ferem, flanqueiam-se a fragmentos do dia-a-dia vividos com angústia. A poesia Pedaços é, neste sentido, exemplar (p.50).

 

PEDAÇOS

 

Estou estilhaçada

silêncios saem da boca mansos

estava desenhando

palavras

pendi o jeito de amanhecer

 

tenho tantos pedaços que sou quase infinita

 

Aqui, como em outros lugares do livro, o peso da vida se exprime através do es forço em acordar, que nasce da recusa inconsciente de retomar contacto com o mundo: em um nível não mais sublimado, Vera usa expressões inequívocas como «cancellazione dell'essere», «lacerazione», «destruição». O mundo é apreendido como alguma coisa que agride do externo, sempre pronto a golpear, ferir, lacerar. Estes fragmentos de auto-análise, estes lampejos de clarividència são apoiados por um léxico magoado que se recorta áreas semànticas e fono-simbólicas peculiares: do título (A poesia) dói - (La poesia) si lacera, aos vários me exilam, me corroem, perfuram-me (p. 30).

úlceras, palpitações, ácido (p. 36).

Foi de solidão - rode di solitudine (p.40).

rachaduras = spaccature (p. 42).

grudam desesperadas no muro = si attaccano disperate al muro (ib.).

rabiscam formas = scarabocchiano forme (ib.).

ferindo, furando, forca (p: 52).

 

Murilo e Drumrond: as afinidades

 

Citou-se o nome de Murilo Mendes para enquadrar as primeirás obras de Vera Lúcia de Oliveira no panorama da poesia brasileira contemporânea. E sem dúvida o . itinerário biográfico mostra não poucas similitudes: também Murilo Mendes nasce no Brasil (em 1902), transfere-se na Itália (em 1957, portanto na plena maturidade); e no nosso país vive e escreve até o ano da sua morte (1975). Tarnbém Murilo Mendes provou o árduo privilégio de viver as próprias experiências em dupla perspectiva, de redescobrir o Brasil, a sua língua, a sua cultura, com a sensibilidade aguçada 'dos bilingues. E, para completar a série das afinidades exteriores, também Murilo Mendes escreveu um livro de versos em italiano, Ipotesi, publicado póstumo, em 1977.

Mas no plano propriamente poético, Vera afirma-se como herdeira de Carlos Drummond de Andrade: a ele a aproximam a poesia do cotidiano, o pessimismo existencial, a timidez arredia mas não destituída de ternura, e disponibilidade para com os outros. Enfim, a procura de urna palavra poética que se sabe inadequada:

 

uma palavra (não morta)

anémica como esta manhã de maio (p.44).

 

Em um, verso corno esse se respira a mais alta lição de Carlos Drurnrnond de Andrade:

 

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser èscritos. (...)

Ei-lo sós e udos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros.

Calma, se te provocam.

(Não faças versos...)

 

Em nome de Carlos Drummond de Andrade não me resta que concluir este convite à leitura de Geografie d' ombra, desejando a Vera Lúcia de Oliveira que continue uma experiência poética, densa de prvmessas, para que possamos em breve ouvir de novo a sua voz clara e frágil, e os versos luminosos, cortantes como estilhaços de cristal.

(Barbara Spaggiari, "Uma poetisa brasileira na Itália: Vera Lúcia de Oliveira", in Letras & Letras, Lisboa, Portogallo, n.4, 6 fevereiro 1991, p.14)

Raquel Villardi

"Geografie d'ombra"

Non è triste la poesia

non è triste il poeta

triste è il mondo

è il mondo che è triste.

 

Com esta « explicação desnecessária » Vera Lúcia de Oliveira encerra sua coletânea de poemas - Geografie d'ombra -, deixando suspenso o questionamento: seria mesmo desnecessária a explicação, depois da leitura de um corpus costurado com o fio da angústia?

Porque é a angústia o que sobressai neste belo trabalho poético, onde o bilingüismo se configura como o sintoma de uma busca de identidade - o derramamento de um magma dilacerado entre a líquida essência brasileira e o sólido destino italiano -, denunciado desde a estrutura bipartida em que se assenta.

Os poemas da primeira parte, escritos na Itália e em língua italiana, erguem-se num espaço de perda: « Dopo la morte ». Referem o desaparecimento de uma identidade primeira - morta enquanto realidade palpável e cotidiana, caveira eterna de um passado aprisionado nos porões da memória - diante de uma nova verdade que luta por emergir. E neste universo de comparações implícitas, de saudades inconfessáveis, os poemas curvam-se à inevitável vitória do novo, do alheio, do estrangeiro, paulatinamente já não tanto.

O real adentra em flashes, percorrendo cada recôndida aresta, fazendo emergir o poético no momento invulgar do amarelo, antegozando a uva na gravidez da vinha.

 

VIGNE

Terra gravida

I rami pendono

rinnovati di colore

e taglio:

           sognano grappoli

 

E por insistir desta maneira, a morte se ultrapassa, se faz travessia, e por sobre a perda primeira delineia-se um novo possível, para o qual os olhos não podem estar cegos.

Mas o dilaceramento insiste, na medida em que o poético se recusa a relegar os escombros do passado, e insiste em reservar-lhe um lugar. A instância da memória estilhaça o que há, sem recuperar o que houve, originando « esse peso de coisa por completar », como a figura do pai-perda, conhecimento que escapa pela mão da morte.

Assim, o segundo grupo de poemas - « La poesia si lacera » - é marcado por um mergulho, não propriamente no passado, mas naquilo que dele ficou como reminiscência, como lembrança:

 

dentro de mim as coisas não

sobrevivem

grudam desesperadas no muro

 

A angústia da incapacidade de reter a retina do passado se traduz em imagens dissonantes («adoecer é sonhar o útero»), nos segredos que indiscretamente compartilhamos, na luta contra a palavra «anêmica como essa manhã de maio».

Mas para além da indagação do lugar do ser no mundo, da tentativa de recompor a identidade pelo recolhimento dos cacos, a poesia de Vera Lúcia de Oliveira nos sussura a problemática do exílio, que de tão recente até quase já nos esquecíamos. Geografie d'ombra, pela leitura do branco-sombra do papel, traz à cena os estilhaços de «um país que não muda quase de cara», de um país que, desconhecendo o amarelo do outono, tem negado, com assustadora freqüência, o viço da primavera na pele de seus filhos.

 

Seu corpo horizontal

às três da tarde

meu desejo de você

meu desejo lacerado de amanhecer você

seu corpo que já viu as ditaduras

 

A velhice que escorre de você transborda rugas

        fadigas

despeja no silêncio seu braço de

                       crepúsculo

 

Seu olho de morte

   se debate na ternura que me envolve

       como uma grade de ferro

 

O eco anestesiado da busca de um país se faz grito agônico nos poros daqueles que de longe, como Vera Lúcia, enveredam nas cavernas da poesia, ansiando pelo momento em que o mar, pela insistência dos olhos, possa fingir que é o mesmo.

(Raquel Villardi, Universidade Federal do Rio de Janeiro, "Geografie d'ombra", sezione "Para além do país impossível", Quaderni Ibero-americani, Torino, Italia, n.72, 1992, pp.746-747)

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(by Claudio Maccherani )