Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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Fonti del Clitunno, foto Claudio Maccherani, 1989

Note critiche sulla poesia
di Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Vera - foto Claudio Maccherani, 2000

"Canto da cidade" - D.Mercury

 

Testi critici sui libri di poesie di Vera:

"A porta range"

"Geografie d'ombra"

"Pedaços / Pezzi"

"Tempo de doer / Tempo di soffrire"

"La guarigione"

"Uccelli convulsi"

"No coração da boca / Nel cuore della parola"

"A chuva nos ruidos"

"Verrà l'anno"

"entre as junturas dos ossos"

"il denso delle cose"

"a poesia é um estado de transe"

"la carne quando è sola"
"o musculo amargo do mundo"

critiche varie

sull'opera poetica di Vera (in generale)

Testi critici sull'opera poetica di Vera di  Antônio Lázaro de Almeida Prado,  Rosa Correia, Carlos Machado, Matteo Fantuzzi, Paulo Rezende, Dóris Natia CavallariCristian Sabǎu, Alberto Pucheu, Victor Oliveira Mateus, Eduardo Dall'Alba, Arlete Gendusa, Alessio Brandolini, Everton Barbosa Correia, Roberto Brozzetti

 

Antonio Lázaro de Almeida Prado

"O ritmo da brevidade..."

Caminhando, com a força de sua idade breve, para a eficácia da brevidade enunciativa, Vera Lúcia caminha, também, e ao tempo, para perto do "coração selvagem” da poesia.

Suas primeiras provas poéticas, moduladas sob a égide da contenção, podem suportar o incitante desafio rilkeano, vale dizer: ela só faz poesia por lhe ser absolutamente impossivel deixar de faze-la, E, com isso, pode até não atender ao sábio conselho de Mário de Andrade: "Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem direito de existir como fatalidade que é (...)”.

Eis que Vera Lúcia, com apreciável sagacidade, resiste bem a prova duríssima de, um pouco ao modo de Elio Vittorini, oferecer-nos um seu "diário em público".

0 módulo a que tendem os seus poemas aproxima-se muito da moldura eficaz dos "haicais".

E, embora nos confesse:"na poesia desmonto a frustração de não saber pintar", talvez não nos equivoquemos ao surpreender na maioria de seus poemas uma linha de sugestão pictórica, ou ate - e isso talvez lhes confira uma enorme graça - um hábil e leve traçado de desenho.

Leves resultam os poemas, de uma leveza grácil, e encantatória, que só um bailado rápido de imagens consegue obter.

Que isso, não nos iluda, porém. Pois esse grácil desenho é fruto de um hábil desempenho construtivo. Até porque essa capacidade de organizar os poemas e de lhes conferir "uma significação de alegria" é fruto de uma ultrapassagem das asperezas da dor, que nos poemas é muito intensa, e, no entanto, recalcada pelo pudor e pela ironia.

Quem disponha dos eliotianos "sentidos pensantes", vale dizer, quem tenha os sentidos despertos e prontos, haverá de detectar, no "fingimento" poético dos "verbos defec­tivos" de Vera Lúcia uma acerba nomenclatura da dura solidão , descontada em uma galeria de imagens e de metáforas zoologicas nos tantos cães, pássaros, grilos, teias de aranhas, disseminados e reiteradamente ocorrentes na "varredura" paradigmática de seus poemas.

Como em Giacomo Leopardi - e Vera Lúcia se inscreve, por "afinidade eletiva", no rol das almas leopardinas... - o verbo defectivo aponta sempre para a angústia do (...) "venir meno / ad ogni usata, amante compagnia".

Mas, também, como no poeta de Recanati, na poesia de Vera Lúcia, por graça fecunda de seu peculiar modo de dicção poética, a dor existencial se escande e atinge aquela algria conatural ao canto, seja dos pássaros, seja dos homens, como sugeriu a excelsa voz leopardina.

Pela força de alguns de seus brevíssimos poemas (embora isso pareça paradoxal) posso pressentir que Vera Lúcia chegará, mais adiante, a construir poemas quantitativamente mais longos, mas qualitativamente sempre breves, porque seletivamente funcionais. Por enquanto, suspeito que os poemas longos sempre representem, para Vera Lúcia, uma tentação... sem maior proveito...

Exigente e áspera é a via da poesia. Até porque toda poética, como o notou com argúcia José Guilherme Merquior, é sempre uma po-ética.

Vera Lúcia ingressa nessa ascese exigentissima e áspera. Mas, desde agora, sabe haver-se com as dantescas "parole di colore oscuro"...

"Tenere cose intrattabili e vive, ma fatte per l'uomo e non l'uomo per loro", assim definiu Cesare Pavese as palavras.

Como notará o leitor sensível, Vera Lucia, ao aceitar o corpo a corpo do embate com as palavras, sabe modelalas e dar-lhes um teor de "alegria breve" e cantante. É, até, uma substância de coralidade, que a ela e a nós nos enlaça na graça irônica de um canto breve e inocente...

Bem haja, pois, o Instituto de Estudos Vernáculos Antônio Soares Amora, na gestão do Dr. .Rafael Eugenio Hoyos - Andrade, quando se dispos a patrocinar a publicaçao destas primícias poéticas de Vera Lúcia.

Que os leitores saibam apreciar, com um saber feito de sabor, estas provas iniciais de Vera Lúcia, ingressando, conduzidos por suas mãos sensíveis, para perto do "coraço selvagem " da alegria...

 

(Antônio Lázaro de Almeida Prado, UNESP de Assis, 10 de abril de 1981)

Pois é...        (Para Vera Lúcia)

 

Porque a vida Se faz

Sem consonâncias

Sofremos.

 

Porque a morte Simula

Dissonâncias

Esperamos.

 

Porque o canto Entretece Sons e vozes

 

Ensaiamos.

 

E para conciliar

Vozes, espantos

Vida, morte...

(Secretas maravilhas,.. )

Poetamos.

 

(Antônio Lázaro de Almeida Prado, Assis, 4/XI/1980)

Rosa Correia

Vera Lúcia de oliveira: uma poetisa de duas "geo-grafias"

a minha primeira cidade me deixou o nome no registro de nascimento

a segunda me tratou como um remédio de fígado

por isso a pátria é onde vou pendurar minhas tardes

abortar uma manhã de serra que

cortou aos poucos sonhos asas pernas

a pátria é onde descubro 

(poesia inedita)

A poesia dói dentro de mim

como quando meu pai podava a parreira

eu ia vendo caírem

as folhas

e ia vendo caírem

as folhas

e ninguém sabia

como os ramos derramavam sons

dolorosos

("A poesia dói dentro de mim" in "Geografie d'ombra")

Dividida entre duas pátrias, sufocada pela barreira linguística que lhe impedia a comunicação com os outros mas dominada pelo "bichinho álacre e sedento" da poesia, familiarizada desde sempre com grandes poetas de língua portuguesa como Carlos Drummond de Andrade, seu mestre, Fernando Pessoa, Murilo Mendes, entre outros, Vera Lúcia de Oliveira, brasileira vivendo em Itália, só podia aniquilar a torre de cristal que a aprisionava e transformar-se numa Boca Bilingüe, para que a voz da sua consciência fosse ouvida. Era como que um duelo de vida ou de morte entre o silêncio e a palavra. Venceu a palavra... Bem haja!

Como continuar fiel a mim própria, à minha língua, à realidade onde cresci, e ao mesmo tempo continuar a fazer poesia noutro contexto e para um outro interlocutor?

[...] Continuava a escrever e a trabalhar nos meus versos, mas era um trabalho muito solitário porque continuava a escrever apenas na minha língua. Era como se me fechasse numa torre de marfim.

[...] esta situação era conflituosa e extenuante.

(Declarações proferidas pela autora no momento da apresentação do livro "Geografie d'ombra", em 16/03/90, em Perugia)

Por isso a poesia lhe doía: ninguém sabia o tanto que Vera tinha para dizer porque ninguém podia entender a sua língua:

Estou estilhaçada

silêncios saem da boca

mansos

estava desenhando

palavras

perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços

que sou quase infinita

("Pedaços" in "Geografie d'ombra")

Vera Lúcia vai adoptar a língua italiana para que o seu universo poético e a sua sensibilidade às coisas mais ínfimas, em suma, a sua mensagem possa chegar aos seus interlocutores italianos.

E nessa procura do contacto com o mundo que a rodeia, aqui na Europa. Vera qual Fénix saída das cinzas do seu silêncio desabrocha uma Boca Bilingüe.

Em 1983 estreara-se no Brasil com A porta range no fim do corredor. Poesias do quotidiano, simples:

pensei em rato

sapato saliente abocanhando espaço

ralo riso de quem já morreu

pensei em silêncio

medo mito

mistificação

pensei aí

que cansaço de pensar

por qualquer coisa

[...]

("A porta range no fim do corredor" in "A porta range no fim do corredor")

Um livro que mereceu da crítica os melhores aplausos.

Na Itália, em 1989, publica Geografie d'ombra (Geografias de sombra).

Dois inéditos: Lugar de espera com textos de 1986 e Tempo de doer com textos de 1987/88 aguardam a oportunidade de serem dados à estampa.

Pedaços como poesias de Lugar de espera e textos mais recentes (1988/90) encontra-se já no prelo.

Quer no Brasil, quer em Portugal e na Itália encontram-se publicados muitos dos seus textos em antologias, revistas, jornais literários, etc.

Em Geografie d'ombra (Geografias de sombra) está patente justamente a problemática do "bilinguismo".

Livro composto por duas partes: Dopo la morte (Depois da morte) escrito directamente em língua italiana e La poesia si lacera (A poesia dói dentro de mim), uma selecção de autora extraída de A porta range no fim do corredor e do inédito Lugar de espera escritos em português e com a respectiva versão italiana da própria autora.

Os poemas de Dopo la morte foram integralmente escritos em Itália e pensados em italiano. Alguns deles estavam há muito em mente, desde o Brasil, mas por corresponderem a emoções muito fortes só na Itália, após um distanciamento espacio-temporal e linguístico, puderam "sair".

Ora um dos aspectos interessantes da autora consiste justamente na sua praxis de uma comunicação bilingue, do uso livre, mas não arbitrário, como veremos adiante, de duas línguas como instru­mento de projecção dos seus estados de alma: umas vezes o português outras o italiano. A "sombra".

A "sombra" da morte do pai relativamente jovem -vitimado por leucemia antes de completar 40 anos - é um dos traumas mais profundos na jovem Vera que contava apenas 18 anos... Este desaparecimento inesperado provocou-lhe um desgosto tão intenso que só na Itália, e em italiano, ela vai conseguir exteriorizar a mágoa que guardava há anos e por isso mesmo a secção italiana de Geografie d'ombra se chama Dopo la morte - Depois da morte (do pai).

Durante anos a autora recalçou essa mágoa e foi finalmente a "outra" língua que conseguiu libertá-la para a vida, a nova vida, a língua que, de certo modo, era "estranha" ao seu drama interior.

Luciana Stegagno Picchio no prefácio deste livro afirma:

Uma morte atravessa a primeira parte, a italiana, destas poesias: uma morte paradigmática como só o pode ser a morte de um pai. O olhar ergue-se atónito para as coisas que surgem por contraste cheias de vida antropomorfizadas: as videiras sonham com cachos de uvas e os campos grávidos da chuva brotam como seios de mulher.

(Prefácio de "Geografie d'ombra")

O italiano foi o veículo libertador das tensões ocultas e bloqueantes e coube-lhe a ventura de exprimir também o cântico da natureza: vinhas, campos, chuva de Verão...

O universo poético de Vera desenrola-se, a partir de agora, numa espécie de "tensão entre dois pólos" como o afirmou Barbara Spaggiari:

Desenraizada do seu ambiente (São Paulo e o Brasil), e transplantada em um outro (Perugia e a Itália), a autora deixa transparecer nos versos a contínua tensão entre os dois pólos da sua experiência: dum lado o passado, o país natal, a-língua materna, os cenários rurais de onde

("Uma poetisa brasileira na Itália: Vera Lúcia de Oliveira" in Letras & Letras. Porto,. 06/02/91)

É uma poesia de duas "pátrias", dois universos, logo duas "geo-grafias": a América e a Europa -dois continentes - no meio o Atlântico, o "Mar Oceano", do lado de lá do Atlântico está o "Novo Mundo", onde Vera viveu a sua infância e juventude, deste lado a velha Europa.

roma é cidade

       frágil

roma é cidade que

parte

tudo se despede em

roma tudo é

falta de futuro

 

o passado está em roma de mau jeito

 

as ruas de roma

são veias com enfarte

saó casa com janelas escuras

pássaros com

defeito

 

roma fertiliza a terra com camisa

de força

corrompe o tempo eternizando horas

          ocas

("Roma" in "Pedaços")

Brasil um grande triângulo grávido como um cacho de uvas suculentas... poderia ser uma Terra Prometida não fora tudo aquilo escapa "aos homens de boa vontade"...

Janela aberta

cidade morta

o céu azul afunda luzes no calor da tarde

o mato que escapa sem olhos no ardor da rua 

sufocado morre no silêncio

quebrado só por mosquitos pardais e aviões que

partem

("Janela aberta" in "Geografie d'ombra")

Itália uma língua de terra apertada entre dois mares carregados de História.

cidade

antiga

cansaço pulsa e corta o tempo presente

 

chão arado pelas guerras

consumido pelas horas

produz e expande erva daninha na fecundidade

                                                         mutilada

caminho outro país

olho outros rostos

sinto outras raivas

 

apodrecer em outro país

é uma dor que não satisfaz nunca

("Canção de exílio às avessas" in "Pedaços")

Duas naturezas, duas atmosferas, duas realidades diferentes a imporem "Geo Grafias" opostas. Toda uma outra dialéctica da Natureza consequente de dois hemisférios - o Sul e o Norte - em amálgama na mente de Vera. Setembro...

No Brasil, em Setembro, a Primavera:

setembro

a côr perde-se em galhos

folhas

lateja nas árvores

 

a primavera se enxerta no mundo

floresce ruas 

invade casas

marca dias que tombam cálidos

 

palpita desejos na noite

que fecunda

a cidade.

("Setembro" in "Pedaços")

Na Europa, chega Setembro e os "olhos tropicais emigram"

no céu setembro nasce

meus olhos tropicais emigram

 

os muros

escuros

esperam folhas

claras vermelhas

mortas

 

meus olhos pássaros simulam asas 

grudam nas coisas que

                          partem

e estreitos

pregados na luz

esperam a tarde crescer

("Migração" in "Pedaços")

Igualmente se cruzam dois espaços políticos e sociais: uma América Latina prenhe de injustiças:

Tinha cinco anos carregava nos olhos

a lucidez

imensa

Comia com violência errando

as pupilas na tarde

                    nua

         [...]

 

Morreu atropelado 

olhando a madrugada

olhos abertos para sempre

("Pequeno pintor" in "Goegrafie d'ombra")

Uma Europa de "democracia" e... relativa abundância:

na catedral de Milão

às três da tarde sexta feira santa

um Cristo estendido expira (de novo)

enquanto uma turista austríaca explica as técnicas da edificação

[ gótica das catedrais da idade média.

 

a um bando sonolento de turistas

um pombo passeia pela nave e pousa no vitral

[ incendiado pela luz horizontal da tarde

 

e o padre se exalta e amaldiçoa (de novo)

Júlio César Pôncio Pilatos Herodes e todos os soldados (romanos

[ e austríacos) amén

("Crónica de milanesa" in "Cose Scavate" - antologia com mais três autores)

Nada escapa ao olhar lúcido de Vera e a sua escrita bilingue serve-lhe não só para denunciar, a todos, aos do lado de cá e aos do lado de lá, a injustiça, o medo, a náusea, a angústia mas também para cantar e louvar as forças imanentes da Vida em oposição ao mundo.

E para concluir aqui nos fica a sua Explicação desnecessária:

Não é triste o poema

não é triste o poeta

triste é o mundo

o mundo é que é triste

( S/Título in "A porta range no fim do corredor")

 

(Rosa Correia, Universidade de Vigo, Boca Bilingue n.8, 1993, Lisboa, pp.)
(Rosa Correia, Silenciada - Festa da palabra 10, Galicia, 1994, pp.121-124, versione gallega di Marga Rodriguez Marcuño)

Matteo Fantuzzi 

"Mettersi in gioco"

I pensieri come le figure si sommano nella poesia di Vera Lúcia de Oliveira, natali brasiliani ma da anni residente in Italia, una poesia che nella propria semplicità ci consegna un'architettura di emozioni e di sentimenti tutt'altro che scontati in una via che mi sento di avvicinare a quella di Vivian Lamarque, per intenderci meglio, anche se con le dovute e ovvie differenze.

È una poesia in sostanza dell'apparente irrealtà, che però dopo una prima lettura subito pone all'evidenza appunto il senso di quanto scritto. E non c'è forse metodo migliore per descrivere e cercare di comprendere la realtà che mischiare ad essa l'immaginario, il sogno, il fantastico: fotografie a testa in giù per far cadere dalle poltrone i morti e svegliarli in definitiva, riportarli in vita, reali nuovamente dopo il torpore.

Una poesia che affascina e talvolta stupisce, pronta a giocare e mettersi in gioco, come farebbe un fanciullino (disse qualcun altro).

 

(Matteo Fantuzzi, Le voci della luna, n.29 luglio 2004, p.26, Sasso Marconi, Bologna)

Alessio Brandolini

"La poesia di Vera Lúcia de Oliveira"

Vera Lúcia de Oliveira è nata in Brasile nel 1958, la madre è figlia di immigrati italiani. L'esordio poetico risale al 1983, lo stesso anno in cui vince una borsa di studio per l'Italia e si trasferisce a Perugia, dove tutt'ora vive, pur essendo ricercatrice di Letteratura Portoghese e Brasiliana presso la Facoltà di Lingue e Letterature Straniere dell'Università di Lecce. Scrive (e traduce) sia in portoghese che in italiano. Tra i tanti riconoscimenti è da segnalare almeno il Premio di Poesia dell'Accademia Brasiliana di Lettere e quello, più recente (giugno 2006), del Ministero dell'Educazione del Brasile con il libro inedito Entre as junturas dos ossos, che sarà pubblicato in 300.000 esemplari e distribuito in tutto il paese.

Verrà l'anno (Fara, Santarcangelo di Romagna 2005, pp. 79, Euro 8) è il suo ultimo lavoro poetico, scritto direttamente in italiano. È una specie di denso poemetto, dove i testi - come quelli della precedente raccolta - si susseguono senza titolo, né punteggiatura, né maiuscole (restano solo i punti interrogativi). Nel cuore della parola (2003, Adriatica - traduzione di Guia Boni) contiene un saggio di Luciana Stegagno Picchio in cui la studiosa sottolinea il forte legame della poesia di Vera Lúcia de Oliveira al senso dell'udito (la sua grande capacità d'ascoltare le voci del mondo), all'oralità e alla tradizione popolare. Per questo i suoi testi sono liberi d'ogni eccesso di retorica, d'enfasi, di ostentata metafisica per puntare dritto al cuore, all'essenza delle cose, e della vita. Una poesia quotidiana, quindi, eppure che, senza apparente sforzo, riesce a spingersi avanti, a diramarsi verso l'altrove, a coinvolgere l'elemento universale. Così la voce del singolo diventa una voce collettiva, che può essere di ciascuno di noi, o di tutti insieme, una voce corale:

la mia storia non la racconto ma se vuoi invento
ho storie dentro di me che nascono e restano
a rimuginare ho un sacco di storie tanto
più le racconto più diventano vere
c'è gente che piange e chiede dove le vado a prendere
rispondo che stanno dentro ognuno di noi

Poesia tratta da Nel cuore della parola, raccolta tra l'altro impreziosita da un commento del grande poeta brasiliano Lêdo Ivo che di questi versi apprezza il "lirismo coagulato" che supera le tradizionali misure metriche "per imporre, in un'apparente decostruzione, una realtà che ferisce e inquieta".

Il bilinguismo di Vera Lúcia de Oliveira, e potremmo anche aggiungere il "biculturalismo", si traduce in un ampliamento degli strumenti per comprendere il mondo, per penetrare i segreti della vita dell'uomo, della sua anima e - soprattutto - del suo dolore, in capacità di accogliere le voci che ci stanno intorno senza rinchiudersi nel proprio io. La lingua semplice e parlata, quella di tutti i giorni che evita ogni parola difficile o aulica, è il filo con il quale il poeta tesse il "discorso comune": la voce intensa e pacata che parla per ogni uomo, così com'era all'origine della poesia. Allora il trascorrere della vita e della storia si fa materia lirica, nutrimento di questi testi che talvolta sembrano racconti in miniatura:

il bosco è una casa di occhi
li vedevo nascosti e mi vedevo
a guardarli rompersi dai gusci
e venire fuori a salutare il giorno

Se la grande tradizione della poesia in lingua portoghese è ovviamente presente in quella di Vera Lúcia de Oliveira - si pensi a Carlos Drummond de Andrade, a Murilo Mendes, al citato Lêdo Ivo di cui qui da noi la de Oliveira ha curato una stupenda antologia, o allo stesso Pessoa, - in quel desiderio dell'autrice d'immedesimarsi in personaggi diversi, di riuscire dal di dentro a esprimerne la passione, il dolore, come non pensare all'Ungaretti che in pochi versi descrive tutto un mondo di passioni, alla sua misura, alla cura maniacale per ogni singola parola. Inoltre la lingua della poeta brasiliana (o brasilo-italiana?), il tono basso e insieme la tenacia nel resistere alla degradazione del linguaggio comune, così come le tante domande presenti in Verrà l'anno e il tono a volte volutamente infantile, ripetitivo, ingenuo, un po' sconnesso, fanno venire in mente il primo Palazzeschi (di "I cavalli bianchi" e "Lanterna") e i poeti dialettali italiani del Novecento, soprattutto Raffaello Baldini:

c'era un vento leggero
lo sentivo sul tetto
sfregarsi alle tegole
strusciarsi pare
avesse preso gusto
ad annusarle

Il rapporto con il Brasile lontano è fortissimo, e struggente. Per questo la parola "casa", è la più usata (sognavo una casa sulle spalle/ come una lumaca dicevo). Un alloggio sobrio e piccolo, perché bisogna essere sempre pronti a spostarsi, a fare e disfare le valigie, a portarsi dietro poche cose: quelle necessarie, indispensabili. Soprattutto il ricordo, e la presenza e l'amore degli altri. Normalmente la poesia si nutre di silenzio, qui è il contrario: la casa-poesia di Vera Lúcia de Oliveira è fitta di voci e rumori, e affollata di volti.

Verrà l'anno (che come inedito ha vinto il premio "Popoli in cammino") si compone di 59 brevi testi: è un piccolo libro che però contiene grandi cose. Dal taglio originale, per via di quel surrealismo dimesso, fatto di versi quasi sussurrati, privi di toni retorici e declamatori. Dalle poesie di questo poemetto che si proietta verso il futuro - eppure legatissimo al passato e alla memoria - emerge un mondo fiabesco e altamente lirico, legato alla purezza, al candore, alle portentose visioni dell'infanzia.

 

(Alessio Brandolini, Fili d'Aquilone n.3, luglio/settembre 2006)
http://www.filidaquilone.it/num003brandolini3.html

Paulo Rezende

Conheci a poesia da Vera Lúcia de Oliveira graças ao Antonio Manoel, na sua coluna “Quase Desconhecidos”, aqui no Vitrine. Quando li os comentários dele sobre "Tempo de doer", pensei na hora, “quero mais”.

Passou-se um tempo, a Vera entrou em contato, queria o e-mail do Antonio Manoel, acabamos trocando mensagens e comecei a ler mais sobre mais esta paulista/italiana (preciso também ler mais dela). É interessante ver como ela lida com realidades tão diferentes quanto o interior de São Paulo, onde nasceu, e o primeiro mundo da Itália, onde teve que “renascer”.

Duas coisas me intrigaram muito, à medida que fui conhecendo melhor a Vera. Primeiro, a gentileza – genuína – na troca de mensagens. Segundo, a capacidade dela de juntar prêmios, lá e cá.

Aí, resolvemos fazer uma entrevista, para ver se juntava as coisas. E ficou tudo claro: a Vera sabe muito bem do que fala. E fala muito bem do que sabe.

 

(Paulo Rezende, Vitrine Literária, 27 de novembro de 2006)
http://www.vitrineliteraria.com.br/index.asp?Ir=noticias_exibir.asp&noticia=1049

Carlos Machado

"Estilhaços de poesia"

Se você entrar num site de busca, como o Google, e procurar por "Vera Lúcia de Oliveira", vai encontrar, talvez, mais endereços italianos que brasileiros. Não é estranho. A poeta Vera Lúcia de Oliveira, nascida em Cândido Mota, São Paulo, é professora de literatura na Itália, onde reside.

Vera Lúcia incorporou o italiano. Seus versos nascem ora na língua de Dante, ora em bom português brasileiro. Fiel aos dois lados, ela depois traduz os versos para um ou outro idioma. Mas a intimidade com o vernáculo adotado se tornou tão grande que Vera Lúcia até já conquistou prêmios de poesia em italiano.

Neste boletim, escolhi quatro poemas da autora. "Rua de Comércio" e "Pedaços" foram extraídos do volume Geografie d'Ombra/Geografias de Sombra (1989); "Andorinhas" vem do livro Tempo de Doer/Tempo di Soffrire (1998). O último texto, "A Poesia Dói Dentro de Mim" integra a coletânea A Porta Range no Fim do Corredor (1983), livro de estréia da poeta.

O que parece caracterizar a poética de Vera Lúcia de Oliveira é essa aguda observação dos estilhaços da vida: a hora que passa, as folhas que caem numa lembrança de infância, o velho tanque de guerra integrado pacificamente à paisagem italiana. 

A poesia dessa paulista não é de esbravejar, fazer caretas, falar alto. São palavras sutis como o pássaro que pára para repousar. Ou como os sons dolorosos derramados pelos ramos da árvore podada. 

Além de poeta, Vera Lúcia é ensaísta. Seu trabalho mais recente, publicado em italiano e em português, é Poesia, Mito e História no Modernismo Brasileiro (Editora da Unesp, 2001), no qual a autora faz uma análise de três livros centrais do modernismo: Pau-Brasil (1925), de Oswald de Andrade, Martim Cererê (1928), de Cassiano Ricardo, e Cobra Norato (1931), de Raul Bopp.

 

(Carlos Machado, Poesia.net n.40, 8 ottobre 2004, São Paulo
http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet040.htm)

"Pássaros convulsos"

Mais uma vez, este boletim retorna a um autor já publicado, revisitando o trabalho da poeta paulista-italiana Vera Lúcia de Oliveira. Depois de seu aparecimento no poesia.net n. 40, quatro anos atrás, Vera Lúcia já publicou três livros no Brasil: a antologia poética A Chuva nos Ruídos, de 2004; No Coração da Boca, de 2006; e Entre as Junturas dos Ossos, também de 2006. 

O primeiro desses livros recebeu o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras de 2005. O último, publicado pelo Ministério da Educação, foi um dos vencedores do concurso Literatura para Todos e circula numa edição tamanho-Brasil de 300 mil exemplares.

Dividida entre dois continentes, Vera Lúcia desde 1983 reside na Itália, onde leciona literatura portuguesa e brasileira na Università degli Studi di Lecce. Para não perder as raízes, Vera sempre escreve de forma bilíngüe, em português e em italiano. Se compõe num dos idiomas, sempre faz uma versão para o outro. 

O curioso disso é que ela se tornou uma poeta multipremiada, lá e cá. O volume No Coração da Boca, por exemplo, tem um gêmeo italiano, que é Nel Cuore della Parola. Outro livro de Vera Lúcia, Verrà l'Anno (Virá o Ano), este apenas na versão peninsular, recebeu dois prêmios na Itália: o Popoli in Cammino e o Prêmio Internacional de Poesia Pasolini.

Além de poeta e ensaísta, Vera Lúcia de Oliveira é também uma dedicada divulgadora de literatura em língua portuguesa. Ela já traduziu para o italiano textos de poetas brasileiros e também, em sentido inverso, textos de língua portuguesa para o italiano. No site Alguma Poesia, temos dois exemplos disso: poemas de Carlos Drummond de Andrade vertidos para o italiano e versos do poeta italiano Alessio Brandolini traduzidos para o português. 

A poesia de Vera Lúcia de Oliveira é um trabalho extremamente sensível que se mantém em fina e doída sintonia com as coisas do mundo. O tom é sempre discreto, avesso a fanfarras e sarabandas, num território onde se movem seres humanos, donos de vidas pequenas. Vidas de gente opaca e sem nome. Grande, mesmo, estrídula em sua empatia e abrangente no abraço, é compaixão que esses versos transpiram. 

Não há tragédias explícitas nos versos de Vera Lúcia de Oliveira. No entanto, a humanidade que neles se move é uma espécie triste, mesmo quando ri ou comemora. Aquela tristeza de pessoas que vão tocando a vida, mas parecem, lá no fundo, intuir que nas tramas do mundo não sobra muito espaço para elas.

O mais impressionante dessa lâmina de realidade — primeiro, brasileira; depois, humana — que atravessa cada poema da autora é notar que a maior parte de seu trabalho foi produzido longe do Brasil. 

Eu nunca havia me dado conta de como é recorrente a imagem do pássaro nos poemas de Vera Lúcia de Oliveira. Somente agora, ao reler três livros, lado a lado, percebi esse detalhe. Além de ela ter escrito um livro chamado Pássaros Convulsos (inédito em português, mas com alguns poemas incluídos na antologia A Chuva nos Ruídos), a referência às aves está presente em vários outros títulos. 

Somente na pequena amostra ao lado há quatro poemas com referências a pássaros. Não é por acaso. São aves humanas. É o desejo de voar. 

(Carlos Machado, Poesia.net n.235, 14 novembre 2007, São Paulo)
http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet235.htm

"O múscolo amargo do mundo"  

Sempre que leio a produção mais recente de Vera Lúcia de Oliveira, poeta paulista radicada na Itália, lembro-me desses poemas de Bandeira. Não se trata de dizer que Bandeira influenciou Vera Lúcia. O ângulo é outro: creio que seja mais uma questão de olho pessoal. Vera Lúcia tem a sensibilidade de ver e transfundir em poesia essa realidade brasileira.

Quem sabe, as décadas de vida longe do Brasil a tenham auxiliado no ajustamento dessa mirada especial, nessa capacidade de enxergar o absurdo que, para a maioria de nós, possivelmente já se tornou “natural” e, portanto, “invisível”.

Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota, SP. É professora universitária de literatura portuguesa e brasileira na Itália, onde reside há décadas e onde escreve ambidestramente em português e em italiano. Sua incorporação do idioma de Dante foi tão profunda que ela já conquistou diversos prêmios de poesia em italiano.

Não é a primeira vez que Vera Lúcia aparece nesta página. Ela já esteve aqui na edição n. 40, em outubro de 2003, e também no boletim n. 235, de novembro de 2007. Vera é também uma das colaboradoras do poesia.net. Uma de suas contribuições, por exemplo, foi o boletim n. 187, para o qual traduziu e apresentou o poeta italiano, nunca publicado no Brasil, Alessio Brandolini.

Lamentavelmente, nunca tive a oportunidade de conhecer, face a face, a maioria dos poetas atuais publicados no poesia.net. Não é o caso de Vera Lúcia de Oliveira, uma amiga preciosa que faz parte do legado deixado a mim e a outros amantes da poesia pelo saudoso companheiro Donizete Galvão (1955-2014).

Os poemas mostrados neste boletim foram extraídos de dois livros de Vera Lúcia de Oliveira: O Músculo Amargo do Mundo (Escrituras, 2014) e A Poesia é um Estado de Transe (Portal, 2010). Em ambas as coletâneas os poemas, embora sem perder a emoção lírica, tendem a encarar essa realidade brasileira que muitos certamente consideram indigna de poesia.

Um sinal inequívoco disso está na capa de O Músculo Amargo... (acima), que exibe a foto de um catador de material reciclável em São Paulo - homem que se desloca pelas ruas arrastando uma carroça de duas rodas carregada com latas, vidros, papelão.

Selecionei cinco poemas de O Músculo Amargo do Mundo. Nesse livro, os textos não têm título. Desse modo, recorro aqui a um expediente já conhecido de vocês: para facilitar a identificação, uso entre colchetes, à guisa de título, o verso inicial do poema.

O primeiro texto é “[Nem bem tinha adoecido]”. Trata-se de uma peça que tem de ser lida por inteiro. Não é possível isolar um trecho, uma frase ou alguns versos. Aí está a realidade, crua e vestida com a capa da desfaçatez. Alguém adoece, possivelmente vai morrer, e então os abutres dão em cima dos parcos recursos do infeliz.

Um detalhe: o poema é construído de tal forma que não se pode dizer se a pessoa lesada é homem ou mulher. Também não se sabe quem veio “limpar-lhe a casa” (aqui, o verbo limpar não carrega nenhuma higiene, nenhuma limpeza). Vieram — sujeitos indefinidos: parentes? amigos? conhecidos?

Outro texto do mesmo nível é “[Viu o fiapo da teia]”. Trata de um inseto apanhado numa teia de aranha. Embora alguém tente salvá-lo, o bicho “já estava dentro da morte / e não sabia”. Esse poema parece apontar não para a situação do inseto, mas para a vida precária dos seres humanos que se movem em O Músculo Amargo do Mundo.

Em “[Esse cão me segue]”, quem fala é alguém que, pelo contexto do livro, parece ser um morador de rua, alguém que tem o cachorro como companheiro. A rigor, bem mais que isso: “ele é meu irmão / ele é que é meu dono”. Em poucas palavras, a solidão e o abandono de um ser humano à margem da vida.

O mesmo abandono aparece em “[Sinal da cruz ajuda]”. Aqui, o sujeito que fala descreve, sem mágoa nem blasfêmia, as asperezas da vida. O que preside seu desabafo é um rombudo sentimento de desânimo, o estado de espírito de quem se vê mergulhado numa situação sem saída, da qual nem Deus é capaz de tirá-lo. Mas a impotência não é da divindade, e sim do próprio sujeito, que não se julga merecedor da atenção de um ser tão maiúsculo e distante.

O último texto de O Músculo Amargo do Mundo é “[Não se nasce onde se quer]”. Aqui, a pessoa que fala compara-se a uma formiga, seguindo uma fila indiana de seus semelhantes, programada para carregar um peso, cumprir sua tarefa — e só.

Os textos selecionados de A Poesia É Um Estado de Transe respiram a mesma atmosfera daqueles extraídos do outro livro. Contudo, as pessoas e animais aqui não parecem ter caído tanto. Sofrem um vazio, carências agudas e indefiníveis. Uma dessas carências é o que angustia a pessoa descrita em “A Fome”. Uma necessidade tratada como fome, mas que não é de alimento nem de água. Uma fome que “ele não saberia dizer”.

Semelhante sensação de vazio aparece em “O Osso”. Nesse poema não se pode dizer se o protagonista é realmente um cão ou este apenas representa um termo de comparação para uma pessoa. Como já vimos, os poemas de Vera Lúcia de Oliveira cultivam esse tipo de imprecisão que multiplica as possibilidades de leitura.

No poema “A Solidão”, a palavra “vazio” volta a aparecer numa tentativa de explicar aquele sentimento de falta, de incompletude. Em “O Pedido”, a carência retorna, agora explicitamente apresentada por um homem (pai? avô? irmão) a seus familiares.

Vem, por fim, “Sabia Falar”. Nesse caso, quem sabia falar — com a morte! — é possivelmente uma mulher, “a esposa do que não / tem morada”, “a dama das coisas / prenhes de mistério”. Enfim, alguém que num ambiente de carências indefiníveis encontra saídas no delírio ou no mistério.

Em O Músculo Amargo do Mundo e A Poesia é um Estado de Transe, Vera Lúcia de Oliveira nos apresenta uma poesia que mantém os pés firmes no chão. Não se trata de versos para provocar sorrisos ou para acalentar corações enamorados. São textos diretamente extraídos do lado mais sombrio do cotidiano, ou no dizer mais sonoro da autora - "o músculo amargo do mundo".

(Carlos Machado, Poesia.net n.341, 14 ottobre 2015, São Paulo
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet341.htm)

Dóris Nátia Cavallari

"La poesia in due lingue di Vera Lúcia de Oliveira"

sono in tanti pezzi

da essere quasi infinita

                   Vera Lúcia de Oliveira

 

Nel corso dell’ultimo secolo tanti sono stati i viaggi, gli spostamenti, tante le possibilità di conoscere e scegliere nuovi posti per studiare, sognare, vivere. 

Un nuovo paese, una nuova cultura e lingua sono sfide che non tutti riescono ad affrontare, però alcuni lo fanno con coraggio, disposizione e arte.

È il caso di Vera Lúcia de Oliveira, poetessa brasiliana che è partita per l’Italia nel 1983 con l’obiettivo di approfondire i suoi studi di lingua e letteratura italiana e poi si è trovata davanti ad una nuova possibilità di vita e di poesia; è diventata scrittrice bilingue, anche lei portavoce di quell’identità composita che oggi tanti scrittori "migranti" esprimono in italiano.

Ma la poesia di Vera de Oliveira, in qualsiasi lingua, è soprattutto la testimonianza lirica del dramma umano, resa con grande varietà di ritmi e tonalità. Concentrata e lenta è la cadenza della prima raccolta, in versi come "La poesia dentro di me si lacera/ come quando mio padre potava le vite// io vedevo cadere/ le foglie/ e vedevo cadere/ le foglie" (in Geografie d’ombra), di A porta range no fim do corredor, pubblicata in Brasile nel 1982 quale opera vincitrice di  premio letterario, e più tardi, nel 1989, in italiano, in Geografie d’ombra, il primo dei suoi libri bilingui, che riunisce poesie nate ora in portoghese ora in italiano e che lascia presagire tutta la ricchezza del mondo poetico di Vera.

Appena arrivata in Italia, l’autrice, che aveva allora iniziato la sua carriera poetica in Brasile, rimase affascinata da quel mondo antico e ricco di testimonianze di storia e di arte, molto diverso dal suo giovane e vitale paese d’origine. Allora la sua poesia, fatta di tanti momenti di silenzio e di introspezione, si rifiutò di “diventare parola”, aveva bisogno di tempo e aspettò pazientemente che il suo sguardo tornasse dentro casa e si trasformasse in silenzi essenziali che, a loro volta, ridivennero logos e eloquio lirico: questo avvenne davanti a un quadro di Picasso, nel 1984.

Dopo essersi ri-trovata poeta, Vera Lúcia de Oliveira ha capito di essere scrittrice bilingue, ma questa presa di coscienza non è stato il frutto di un cammino facile e indolore, come si intuisce leggendo Pedaços/Pezzi (1992). È questo il libro che testimonia della sua crisi, il libro nel quale si può identificare la sofferenza di un’anima divisa alla vana ricerca di quelle certezze originali che la facevano sentire intera, il libro nel quale Vera scrive e descrive la sua "Negazione", "la poesia non serve/ porto dentro un mondo che non nomino/ tutto quello che non posso dire/ non nasce// perforo superfici/ soavi/ muta mi costruisco/ meglio ma sono/ gente// e la mia negazione/ è questa volontà/ di diventare parola". Con Pedaços / Pezzi si definisce il mondo poetico della de Oliveira che rivendica con il primo testo del libro, "Il diritto al diverso", il suo diritto alla creazione artistica in due lingue, per esprimere e unire due mondi, due culture e un’anima frantumata "in tanti pezzi/ da essere quasi infinita".

Uno dei grandi momenti della sua espressione poetica si trova in Tempo de doer/Tempo di soffrire, del 1998. Il libro, nelle parole di Vera, riportate da Franco Loi nell’introduzione, "è una riflessione sul dolore fisico, metafisico, sul dolore di animali, piante, cose. Ho suddiviso la raccolta in tre parti. Fra la prima e la seconda parte, la differenza maggiore sta forse nel tono più soggettivo della seconda, mentre la prima riguarda l’essere in generale, appartenente a qualsiasi nazione o continente. La terza è un tentativo di cercare ‘deviazioni’ dal dolore".

Diviso quindi in tre parti, nominate Nos vãos do tijolo (Nelle crepe del mattone), Cortes (Tagli) e Desvios de doer (Deviazioni del soffrire), il libro Tempo de doer/Tempo di soffrire, "nato quasi bilingue", presenta le diverse sfumature del soffrire. L’autrice non ci rivela quali poesie sono nate in italiano e quali in portoghese, ma ci regala le due versioni prodotte da lei stessa, non mere traduzioni, ma riscritture delle emozioni, dei sentimenti, della sua "cognizione del dolore".

La prima parte presenta il dolore materiale, fisico della "Casa abbandonata", "muta/ come il dolore incollato in lingua muta.... muta/ e densa come un mattone che ha inghiottito la storia". La storia e il soffrire sono legate dalla testimonianza materiale delle case, delle città, delle rovine del tempo; il dolore è continuo e costante come "La storia": "il corpo di un torturato/ scava attraverso i secoli/ la sua intensità di dolore e morte".

La storia scolpisce i dolori nelle forme, con i colpi, i Cortes (Tagli) che penetrano nell’anima, che corrodono la memoria ed esprimono "L’indicibile": "dentro di me/ l’occulto/ amore// non ti do se non/ ciò che sto tessendo/ di perdita in perdita". Ma tutte le sofferenze hanno il loro momento di sollievo, di Desvios da dor (Deviazioni del soffrire), nel quale si cela il dolore creativo dell’arte, come in "Cubismo" - "i quadri di Braque/ Picasso Léger/ sono ossa/ disgiunte/ volti/ visti/ da dentro/ /coltello/ che trancia galli che trancia/ occhi che trancia dolo/ re dal lato di dent/ ro", oppure nella percezioni del movimento naturale della vita, come nel testo "Alberi": "cime verdi/ si muovono/ sotto un cielo carico/ di pioggia/ giocano/ che siano loro a dipingere/ i lampi e i loro rombi".

Se la poesia dell’autrice brasiliana raggiunge una musicalità armonica in Tempo de doer/Tempo di soffrire, nel quale il suo lavoro stilistico arriva alla maturità, in La Guarigione, del 2000, libro scritto totalmente in italiano, vincitore del premio "Spiaggia di Velluto" di Senigallia, abbiamo una vera sinfonia poetica. Il testo in italiano dialoga con la storia della stessa autrice e si sente, per dirla con Blanchot (O espaço literário, 1987), il suo lasciarsi andare al "fascino dell’assenza di tempo", la sua "essenza di solitudine" che "diventa parola" e dialogo in "L’assenza": "l’assenza – disse/ non è mai vuoto/ tutto quello che dimentichi/ ti corrode l’occhio". Scrivere, dice ancora Blanchot, "è rompere il vincolo che unisce la parola all’io, rompere la relazione che, facendomi parlare per ‘te’, mi dà la parola nel modo che viene capita da te... perché l’interpellare inizia in me e finisce in te".

In La Guarigione le voci dell’io e del tu si trasformano in poesia, c’è ancora il dolore, ma c’è, essenzialmente, la "cognizione dell’essere" e la solitudine è interrotta dai tanti "disse", dalle voci altrui che permettono di recuperare anche "il sonno" come momento di condivisione, di rivelazione della realtà e del mondo: "la mamma aveva i capelli/ che ricordavano i lampi/ morbidi come i cuscini/ luminosi come i campi". È impossibile non pensare alla tenerezza, ad una percezione più dolce, più musicale e ritmica dell’esistenza, ad una presa di coscienza che "le parole non dette - disse/ crescono come tumori", e che "la guarigione sta – disse/ nei lembi che asporti di te/ con la fedeltà chirurgica/ della memoria".

Dopo questa "guarigione", il lettore è sorpreso dall’agonia degli Uccelli convulsi (2001) che "urtano contro i pali/ gli uccelli/ distillati dalla notte/ si spezzano nel volo innaturale". A prima vista sembra che la poesia si impegni nel tradurre i dolori vissuti nei  paesaggi e nella realtà nel suo paese d’origine, lacerazioni espresse in versi come quelli di "Terzo mondo", "nel terzo mondo/ del cielo/ vanno piccole anime/ calpestate/ vanno bambini/ il cui dolore divora l'infanzia". Tuttavia, dopo averlo letto tutto, non è possibile distinguere nettamente il punto d’origine di queste poesie: le immagini e le esperienze rimandano a un mondo "bivocale", ormai impossibile da dividere in due parti nette. L’anima non è più frantumata in tanti pezzi, è amalgamata in un’unica nuova forma, in una poesia sempre più universale.

No coração da boca/Nel cuore della parola del 2003 è scritto in portoghese e tradotto, per la prima volta, non dall’autrice stessa ma da Guia Boni. Il libro richiama ancora una volta l’interiorità de "L’utero": "avrei voglia di non essere mai uscita/ dall’utero di mia madre là almeno non/ avrei desiderato quello che non potevo", afferma una delle tanti voci che si alternano in questo libro singolare, voci che convivono con un ritmo viscerale, una musica intrinseca ad ogni essere e ad ogni testo: "ho la musica dentro mi abita/ quando mi alzo lei già mi aspetta/ quando cammino lei mi cammina davanti".

In questi ultimi testi la poesia è meno frammentata, di una sonorità che non dipende più dai tagli netti marcati da vocaboli che richiamano il dolore, la morte e la solitudine. A partire da La Guarigione, la musicalità della poesia è legata ad un ritmo quasi di racconto, di continuità, di storie che fluiscono dentro l’eternità della Storia, come nei versi della "Storia": "la mia storia non la racconto ma se vuoi invento/ ho storie dentro loro nascono e restano/ a rimuginare ho un mucchio di storie tanto/ più le racconto più diventano vere/ c’è gente che piange e mi chiede dove le vado a cercar/ rispondo loro stanno dentro ognuno di noi".

Nel 2004, la de Oliveira ha pubblicato in Brasile un’antologia delle sue poesie edite e inedite in portoghese, dal tilolo A chuva nos ruídos, che le è valso il prestigioso premio dall’Academia Brasileira de Letras come miglior libro di poesia dell’anno. Nel 2005 Verrà l’anno, scritto in italiano, ha ricevuto il premio "Popoli in cammino" ed è risultato finalista-vincitore di un altro premio importante, il "Premio Intrernazionale di Poesia Pasolini", come uno dei tre migliori libri di poesia pubblicati in Italia nel 2005/2006. Questa è una raccolta con testi più brevi, con tagli più netti, con spazi vuoti nelle pagine. Pare proprio che l’autrice abbia raggiunto qui un traguardo, un momento di sintesi e di maturità poetica, perché ormai lei conosce benissimo tutti i ritmi e gli accordi della sua poesia che si raffina sempre più, presentando differenti toni di introspezione e di dialogo con il mondo (o sarebbe più appropriato dire con i "mondi" che lei conosce e sintetizza nella propria opera), con sottile ironia, con versi che parlano de "l’anno nuovo [che] è entrato/ la porta non se n’è accorta se non/ per quel rumorio sommesso/ del video che brindava/ a sé stesso" o dell’indipendenza di un io poetico che può affermare, con delicato umorismo e ironia: "io guarisco da sola ritrovo/ il mio letto mi stendo poi/ leggo mi svago immagino/ viaggi da fare partenze/ fermate ritorni poi mi/ stanco rimbocco le/ coperte e dormo".

In questa fase la poesia della scrittrice brasiliana dimostra una padronanza dei propri mezzi espressivi e una conoscenza profonda dei bisogni dell’anima. Se scrivere è, come dice Blanchot, "fare eco di ciò che non si può tacere" e se la tonalità della scrittura è "non la voce dello scrittore, ma l’intimità del silenzio che questi impone al suo dire", possiamo ancora aspettarci da Vera Lúcia de Oliveira tanta poesia che parla, in due lingue, di due universi e di tutti i silenzi che non può lasciare muti dentro la sua anima.

In Italia, vivendo in un paese diverso e praticando una lingua diversa, la scrittrice si è messa nella confluenza fra mondi che lei vorrebbe far dialogare, una testimone di un tempo nel quale l’uomo deve cercare la propria casa e la propria identità anche dentro sé stesso, perché nel movimento dispersivo del mondo globalizzato conservare la memoria e l’identità originale ci aiuta ad avvicinarci all’altro, a comprendere che il suo disagio e il suo dolore hanno radici comuni con i nostri disagi e i nostri dolori. La sua poesia ci aiuta in questo percorso, con ritmo armonico e una bellezza estetica che la farà sopravvivere al secolo: "dopo che era passato/ provava la spossatezza/ diceva cosa avrò mai fatto/ di così pesante sembra/ abbia attraversato il millennio/ anziché l’istante".

 

(Dóris Nátia Cavallari, Crocevia n. 9/10, Besa Editrice, Nardò, LE, 2008)

Cristian Sabǎu

"O punte culturalǎ peste Atlantic. Vera Lúcia de Oliveira"

 

articolo di Cristian Sabǎu con poesie di Vera Lúcia de Oliveira (tratte da "A chuva nos ruidos", "Verrà l'anno", "Pedaços/Pezzi", "Entre as junturas dos ossos") tradotte in RUMENO da Cristian Sabǎu

 

ARTICOLO ® 

 

(Cristian Sabǎu 20 giugno 2008, Romania)

 

"7 poete pentru Ziua Internationalǎ a Femeii - 8 martie 2012

 

articolo di Cristian Sabǎu con poesie di 7 poete migranti, tra le quali Vera Lúcia de Oliveira,  tradotte in RUMENO da Cristian Sabǎu

 

ARTICOLO ® 

 

(Cristian Sabǎu 8 marzo 2012, Romania)

 

"O secventǎ din «poezia migratei» Vera Lúcia de Oliveira"

 

articolo di Cristian Sabǎu con poesie di Vera Lúcia de Oliveira, tradotte in RUMENO da Cristian Sabǎu, in occasione della presentazione dell'opera poetica di Vera all'Università di Cluj Napoca il 29 maggio 2012 (nell'ambito della Letteratura italiana contemporanea)

 

ARTICOLO ® 

 

(Cristian Sabǎu 29 maggio 2012, Romania)

Alberto Pucheu

Querida Vera Lúcia,

em primeiro lugar, gostaria de dizer que gostei muito de nosso encontro e de sua leitura. Ontem, acordei às quatro horas da manhã, pois meu voo estava marcado para às seis e meia, em Ribeirão Preto, e o táxi chegaria às quatro e meia. Pois bem, chegando ao aeroporto, descobri que o voo ia atrasar quatro horas. Aproveitei, então, para ler o seu livro Il denso delle cose. Como havia previsto, achei que, como você lendo, há uma mistura de grande intensidade e de grande delicadeza. Talvez, sua poesia seja uma da delicadeza da intensidade ou da intensidade da delicadeza. Impressionou-me a presença constante da dor e da morte como duas de suas obsessões, sempre trabalhadas de modo a indicar algo que se coloca e que assinala para uma ausência. Acopladas a elas, o grito e o sussurro. Talvez a sua escrita e mesmo a sua leitura ao vivo sejam o sussurro de um grito. Assim, o poema se torna a presença de uma presença e ao mesmo tempo a presentificação de uma ausência. Há uma necessidade de aniquilamento nos poemas. Acho que seus versos curtos, breves, compõem com precisão a ambiência de sua poética, como gosto igualmente dos momentos, não muitos, mas sempre fortes, em que os versos longos se precipitam, impondo-se na quebra do ritmo rápido. Gosto muito de poemas como "Rua de comércio", pela temática que tanto me interessa. Gosto muito do contraste harmônico entre o peso do material acoplado ao incorporal ("não passem rolo compressor/ nas palavras da alma", só para dar um único exemplo entre vários possíveis, ou “a alma violentada” que “racha nos muros/ as palavras”). Gosto muito, claro do "A história", pelo jeito, um de seus clássicos, e muito quando, no fim, o grito da múmia se transforma no seu próprio grito, o grito daquela boca no de sua boca. Gosto também dos temas amorosos, ou das passagens que falam do amor, que me fizeram lembrar o Lacan de amar é dar ao outro o que não se tem e que o amor é uma forma de suicídio ou o Wilde da Balada em que diz que teimamos em matar quem amamos ou a coisa que amamos. Enfim, Vera, só para dizer que gostei de escutar e ler seus poemas.

 

(Alberto Pucheu, comunicazione personale, Rio de Janeiro, 22 agosto 2009)

Victor Oliveira Mateus (a dispersa palavra)

"Acerca da Poesia de Vera Lúcia de Oliveira"

O primeiro tópico que me ocorreu quando pensei falar da poesia de Vera Lúcia de Oliveira, prende-se com o modo límpido como esta autora se relaciona com a Linguagem, um modo desprovido de quaisquer prestidigitações estilísticas ou efeitos que poderiam correr o risco de empobrecer os seus poemas. Contudo, a autora conhece bem o terreno onde se move... Muitos de nós lemos, em tempos, uma célebre obra do Prof. Cerqueira Gonçalves, onde ele, traçando identificações entre os textos literário e filosófico, dizia que um dos motivos dessas aproximações se ficava a dever ao facto de ambos usarem a Linguagem natural. Não pretendendo ir por aí agora, gostaria apenas de dizer que a poesia, no seu discorrer, não é, nunca foi, nem conseguirá ser, até pelo facto de não poder recorrer à eficácia das Linguagens artificiais e dos procedimentos lógicos, um discurso que apreenda rigorosamente as múltiplas vertentes da experiência humana, quer quanto à sua totalidade quer naquilo que elas são em si mesmas. Aliás, e relacionado com isto, poder-se-á até fazer, ao nível de uma sabedoria espontânea, a seguinte experiência: se eu disser branco - e partindo de hipótese que o receptor não tem qualquer lesão na área cerebral que irá receber este estímulo auditivo nem na área secundária que o irá interpretar e coordenar -, no cérebro desse mesmo receptor formar-se-á a representação, não do azul nem do vermelho, mas do branco, o problema colocar-se-á ao nível da gradação das coincidências, do mesmo modo se entrarmos numa loja para comprar tinta branca imediatamente o empregado nos mostrará um catálogo com uma ou duas dezenas de brancos. Não me parece que fique mal a seguir a Cerqueira Gonçalves citar um ensaio de Antonio Brasileiro (A Estética da Sinceridade, p 14), onde o autor, com uma certa ironia nos diz: "Há pouco tempo um desses tipos que está sempre em dia com a última moda do intelecto tentou me convencer de que a diferença entre um bom poema e uma bula de remédio, por exemplo, era nenhuma. Produtos culturais ambos. E só". Ora este é, para mim, o primeiro segredo da arte de Vera Lúcia de Oliveira: movendo-se numa Linguagem despojada, num poema curto e num estilo que recusa todo o tipo de ornado, a poeta insiste em escrever poesia... e não bula de remédio; ela sabe que falar de algo, na prática, será sempre do campo do aproximativo e do incompleto:

 

"Teoria e prática"

 

não tinha termo não tinha jeito

de falar do que era uma perda

vivera e aprendera em todos

os livros que dentro da vida 

há morte mas uma coisa é a teoria

outra a prática

    (in A Poesia é um Estado de Transe, p 14)

 

Ou ainda:

 

"Por trás"

 

por trás do olho

sustar é perigoso

por trás do olho

respira sempre um outro

olho suspeitoso

palpar por dentro é vão

por onde um novo olho sobreposto

espreita o mesmo vão

    (in op. cit. p 24)

 

A autora, em certos poemas, fala-nos mesmo da contaminação (ou do desdobramento) que a Pragmática acaba introduzindo no seio de Linguagem:

 

" Tem palavras"

 

tem palavras que têm cicatrizes

a palavra apego, a palavra parto

a palavra tempo

dentro elas são de madeira

dentro elas se impregnam

quando a chuva bate na janela

penetra os poros

    (in op. cit. p 13)

 

Finalmente, e relativamente a este tópico, posso ainda acrescentar que Vera Lúcia de Oliveira articulando a concisão do seu dizer poético com um subtil manejo do código linguístico e do cânone literário entra pelo universo da narratividade adentro, fugindo às armadilhas da microficção e tecendo antes poemas que adquirem uma certa função de alegoria dentro de um universo socio-cultural específico. Veja-se, por exemplo, o seguinte:

 

"A igreja"

 

a igreja brilhava em silêncio as pombas

do espírito santo voavam de vez em quando

as andorinhas tinham seus ninhos o padre

que mandara trocar o pavimento por mármore

da mais fina proveniência vivia em eterna luta

com os pássaros amaldiçoados que evacuavam

por toda a parte

    (in No Coração da Boca, p 45)

 

Fugindo à tese que a poesia retrata fielmente o real ( numa época em que até a Fotografia, bem como o Cinema, afastaram já de si tal pretensão anacrónica de se deixarem restringir a uma única função da Arte) apercebemo-nos, neste último poema, de uma série de remissões e abrangentes sentidos (as pombas do espírito santo a fazerem-nos lembrar Alberto Caeiro; a luta do padre solitário contra os pássaros, inclusivé contra os de natureza divina, que enchiam de esterco a igreja, etc.) que nos dão a ver o modo arguto - e apetece-me mesmo dizer: sibilino! - com que a poeta tece os seus textos, assim como todo um universo poemático.

Neste segundo tópico ocorre-me dizer que não foi por acaso que acabei de utilizar o verbo tecer. A imagem da poeta, ao longo da leitura dos seus livros, foi-me surgindo sempre geminada com uma outra - a da tecedeira. Assim, foi com alegria que encontrei, dias depois do início das minhas leituras, através da mão do grande poeta e ensaísta que é Lêdo Ivo, a confirmação do que em mim temia ser mais do que pura conjectura: diz-nos, pois, o referido académico no seu Prefácio ao No coração da boca, que a autora "(...) recusa o fulgor e o esplendor, preferindo o caminho dos monólogos desolados que registram o desamparo e a colisão de seres miúdos, de pequenas vidas aflitas (...) O tecido poético de Vera Lúcia de Oliveira não é uma tapeçaria, antes um estopa (...) A poesia é construção, desconstrução, reconstrução. Vera Lúcia de Oliveira constrói, desconstrói e reconstrói: tece, destece e retece o tecido da vida." Suspeitando que o vocábulo estopa foi escolhido, aqui, como modo de clarificar um dado quotidiano socio-económico, continuarei a usar, fugindo agora delibaradamente ao rigor, o de tapeçaria. Pois nesta poesia, paralelamente à tentativa de apreensão de uma dada ordem, quer no corpo do mundo natural e do mundo humano, quer no corpo do próprio texto, há também um vincado intuito de com este nosso Todo entrar em comunicação directa - o transe deste seu último livro. Mas - e uma vez mais Vera Lúcia parece pretender baralhar incautos - através de um conceito que julgávamos que a tradição tinha clarificado, a poeta acaba falando-nos de outra coisa: o transe a que ela se refere não é o que podemos encontrar em vários autores, como por exemplo os místicos do século XVI espanhol, nestes estamos perante um movimento ascensional do sujeito visando uma transcendência que o supera ontologicamente e à qual se encontra subordinado, é esta a concepção de transe que encontramos em S. João da Cruz e Sta. Teresa de Ávila, por exemplo. Mas o transe de que nos fala Vera Lúcia tem o vector em sento contrário, e, perdoem-me a heresia religioso-interpretativa: agora não é o indivíduo que se desprende do sensível para tentar chegar a Deus, é precisamente o contrário, ou seja, é o divino que, se quiser comunicar com alguém, ou entrar em contacto com quem escreve os seus versos e sente o real, terá de descer a um plano outro - veja-se por exemplo:

 

"Acordou de noite"

 

acordou de noite e disse que sufocava

que não conseguia respirar que uma angústia

dentro rasgava o pulmão as vértebras

não adiantava aquele remédio aquele leito

ela sabia

que na hora chegada

do dia que Deus tinha determinado

dentro da grande língua da terra

ela teria de entrar

    (in A Poesia é um Estado de Transe, p 8 )

 

Atente-se ainda a um outro poema onde esse acto de ser tocado aparece agora com mais nitidez:

 

"Há uns que são engenheiros"

 

há uns que são engenheiros

e calculam tempo e dimensão

do arcabouço

há uns que são carpinteiros

e medem ângulos exatos

interjeições da matéria

há uns que vagam no arcano

são medidos e tocados

até perceberem a proporção

correta de cada signo

que revela o mistério

    (in op. cit. p 14)

 

É este, na minha leitura, o transe de que nos fala Vera Lúcia de Oliveira na sua elaborada e paciente tapeçaria poética: não uma subida para se juntar, num outro plano, à divindade, mas um vivenciar, no aqui, tudo aquilo que, nas coisas e nos seres, é extra-ordinário e divino, pois não nos enganemos, o mistério de que ela nos fala, e como escreve no poema com o mesmo nome, não carrega vozes, ele está antes na aragem, na cozinha, nas panelas limpas/ nas tampas penduradas nas hastes/ na goteira incessante da pia. Dito de outro modo: o mistério está por todo o lado e resulta desse contacto directo com o divino destas mesmas coisas e destes mesmos seres, através dessa apreensão, que, como a poeta também nos diz, dá-nos a proporção correcta. Para finalizar, regresso ao ensaio de Antonio Brasileiro, volto de novo à questão da Linguagem e do fazer poético. Refere este autor, após algumas citações de Valéry, que a poesia é resistência, resistência e sobrevivência, e que "numa época de simplificação da linguagem, e de insensibilidade em relação às formas, há que pensar mesmo na poesia como uma coisa preservada", ou, posso eu acrescentar, como coisa a preservar. É isto exactamente o que faz Vera Lúcia de Oliveira: numa Linguagem, que, optando pela clareza, mas nada tendo de simplificação, como acabámos de ver, resgata o divino que existe em tudo aquilo que Há -para usar aqui um termo tão caro à mundividência llansolinana -; nos mais banais, e muitas vezes sofridos, gestos do quotidiano, a poeta recupera (e preserva) o que neles é essencial, e com eles consegue esse transe que é motor e matéria prima da sua poesia.

 

(Victor Oliveira Mateus, A dispersa palavra, Lisboa, 20/05/2011
http://adispersapalavra.blogspot.com/2011/05/acerca-da-poesia-de-vera-lucia-de.html)

Eduardo Dall'Alba

"A poesia do interdito"

Não raro a poesia maior emerge de uma voz distante no mapa, mas de força incontida, com o tema da morte, como em Clarice Lispector fez na prosa. A poesia da brasileira Vera Lúcia de Oliveira é lacerada pela dor, e, no entanto, capaz de se erguer como um denso corolário onde se enfeixam várias fomes. Toda é grito mudo. O grito, no entanto vem colmado de uma escrita que avança algumas questões postas pelo cânone das poesia ocidental, adentrando num universo variado pelas mesmas 20 palavras, na exatidão de seus poemas. Nenhuma palavra sobra.

Se a temática é das difíceis: a morte, a dor, a perda, a laceração posterior a isso, a densidade do discurso não deixa espaço para a dúvida. Uma grande poeta se faz pela economia verbal e na exatidão do vocabulário que utiliza, fazendo surgir a alta poesia, seca, no limite extremo do sentido. Não é poesia de fluir por entre a banalidade e/ou a superfície das coisas e das pessoas, mas antes, do corte, da laceração mesma, do sentido primeiro das palavras, pretensão que logra efeito imediato na leitura dos poemas.

A distância entre as gerações, as falas e os gestos pretendidos, tudo se abarca no poema. Desse modo o primeiro poema são todos os poemas, e qualquer deles, remete ao anterior e ao posterior, porque o que fala ali é a dor e a leitura crua do mundo, em densidade exata, na palavra justa, onde não sobram migalhas de discurso retórico, como acontece em grande parte da literatura atual mundial, sobre o tema da morte:

 

Meu Pai

 

Meu pai que conheci quando se conhece a morte

e todas as mãos que deixou

 

eu vivia para imaginar o gesto

esculpir o carinho

e fiquei assim com esse peso de coisa por completar

lista de compras

herança que não desemboca

 

árida como uma enchente

deserta como um campo de milho não semeado.

 

Poema e verdade poética se entrelaçam para falar da dor, coisa não comum na poesia brasileira, aproximando a poeta do discurso seco, no limite da linguagem do Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade:

 

Não, não é triste o poema

não é triste o poeta

triste é o mundo

o mundo é que é triste.

 

A poesia como uma dor lancinante e ininterrupta:

 

A poesia dói dentro de mim

Como quando meu pai podava a parreira.

 

Ou ainda, como aprendizado da dor pela lição das quatro virtudes cardeais que apontam para a humildade como forma de reconhecimento do humano no poema: Mas a humildade:

 

Mas a humildade não se aprende

se tem

ou não se tem, é assim

e porque um guarda o céu

ou o mar

o seduz a distância diante de um tio morto

e pensa

A humildade um pode tê-la de verdade

mas diante de todas as coisas que

desaguam no rio

que somos

 

diante destas coisas e de outras

a humildade é uma coisas que faz ter vontade de aprender

o imensurável

de aprender o infinito.

 

Ou ainda na concepção do mundo menor, do mundo não reconhecido, não oficial, que não está na folha do calendário e, no entanto existe, com a força do movimento de uma Rua de Comércio:

 

Sou poeta da cidade magra

da cidade que não

caminha

sou dessa planicidade

sou da violência das vidas

poeta da cidade que afunda casas

e pessoas

sou da puta da cidade que só tem

superfície

amanheço todo dia nua e estreita

como uma rua de comércio.

  

Urbano mundo, onde a poeta transige com o pouco espaço, o emparedamento, o sufocamento, a superficialidade do que se oferece á visão, guardando o registro entre a aparência e a essência, no revelar-se a cidade que afunda casas e pessoas. A densidade é ali posta no engessamento ou na paralisia, pois a cidade não caminha, numa alusão ao Inferno de Dante Alighieri, onde as massas aglomeradas caminham por seus círculos, mas parecem não andar, tão numerosos são as filas de almas a ocupar os espaços que as vias parecem estreitas a Virgílio e a Dante.

Ou ainda, a fuga repentina da cidade, ou de um determinado espaço sufocante, onde o poema lancinante abre a porta para uma passárgada mais crua, no poema chamado, ironicamente, como Canção de ninar:

 

O frio da manhã dando ferrovias

na alma

[...]

vontade de amanhecer

                    na china

 

No poema O filho, a crueza e a dureza das relações familiares, onde a distância psicológica entre pai e filho se retomam pela lei do pai:

 

Disseram-lhe do pai

quando já estava morto

ele na cidade grande e o pai penando, não se fazia isso a um irmão, não se deixava fora uma pessoa

só porque ela precisou deixar a própria casa

perder-se numa cidade de cão sem ninguém

não se fazia essa maldade a um filho que nunca

mais ia poder dizer pai cheguei voltei pai

           

O interdito rompe a linguagem e faz do poema um grito, uma forma de libertar a dor que lacera a poeta, diante da crueza da realidade entre pai e filho. Simbolicamente, a linguagem da ausência se faz pelo discurso do poema, que existe para aplacar a dor. Neste sentido, a poeta constrói a base de sua poesia sobre o que está calado, sufocado, emparedado. O tema libertado pela palavra da poeta dá conta de um rio represado de dor e grito. A imagem da ausência do outro, o que poderia dar afeto e resolver a fome é revelada como ausência bruta e total solidão.

Essa vivência que só a poesia pode revelar, pela linguagem por tanto tempo interditada, como sinalizam as palavras do poema Natal:

 

a comida estava na mesa era dia de natal

a mãe com os olhos vermelhos servia o risoto

o pai comia mastigava depressa olhava o prato

a gente sentia que o frango assado parecia

de pedra de tanto que não descia

pelas nossas gargantas.

 

A lei do pai que rege o universo familiar é sufocante no poema; a dor lacerante da mãe com seus olhos vermelhos que transformam a comida em pedra dão conta de uma metáfora da real natureza do poema, de novo como grito, mas mudo, a libertar-se da dor na forma do poema, que se constitui como libelo, como força, como registro de tempos cruéis de convívio familiar. O poema ganha dimensão trágica, como construção de cena brechtiniana.

A poesia do interdito se estabelece como um sinal de valores onde a verdade alcança uma espécie de grau tão alto que o poema faz estralar as palavras que o compõe, tamanha condensação e força elas contém. Esta poesia é a que alcança o que a poesia primitiva atingia quando da formação dos povos: a verdade sobre a qual se assenta a construção do mundo, sem a qual, como sem o grito, não há libertação. Daí o grau de apuro e de proximidade entre a linguagem e o que ela diz, revelando um mundo oprimido, pleno de dor e ávido de redenção.

Toda - a vasta - poesia de Vera Lúcia de Oliveira é atravessada pelo calor do grito e pela dor, perfazendo os círculos internos das relações para chegar à possibilidade do entendimento da alma humana; criando uma alteridade que ganha força á medida em que avançam os poemas em que se encontra a vertente da identificação direta pela fala da poeta. A identificação só é possível porque a poeta tem uma visão definida do mundo, fazendo com que a sua poesia passe ao largo da produção contemporânea e se distinga pela força dos versos que realiza. Não há gratuidade na poesia. É densa e carregada do sentido mais primevo da verdade, entrecortada pelo ritmo que impregna os poemas de uma condensação do resultado, o poema. Poesia que fica e que incomoda o leitor.

Os poemas de Vera Lúcia de Oliveira aproximam o leitor da catarse grega do teatro. E mais não fosse, a poeta revela, pela linguagem, o interdito da cultura familiar, daquilo que durante vários anos não se pode falar. Em poema, a dor transcende e a catarse é realizada com poder de libertação do jugo e se estabelece um vínculo experiencial, entre a autora e o leitor. Já não como leitura apenas de fruição, mas como identificação das matrizes de um tempo que, conquanto próximo, já não existe mais. Para isso serve o poema. Para dizer do que somos feitos e para afirmar que a literatura, sobretudo a poesia, é a que condensa o maior grau de leitura da alma da humanidade, pois ela é a maior das Artes.

 

(Eduardo Dall'Alba, Vozes da poesia contemporânea - Vera Lúcia de Oliveira - A poesia do interdito,
in "Simetria e horizonte", Espaço Engenho e arte, Porto Alegre, 2012, pp.39-43
)

Arlete Gendusa

Alguém que sabia o que dizia e falava com muita propriedade, disse um dia que um verdadeiro Poeta só nasce de cem em cem anos. Para mim, a poeta Vera Lucia de Oliveira é um destes poetas verdadeiros. Ela foi indicada na categoria Prêmio de Literatura para o Brazilian International Press Awards, um prêmio para os brasileiros que vivem e trabalham fora do País e que se sobressaem nos diversos âmbitos da cultura.

Este prêmio funciona na base da votação popular, portanto sugiro à todos os amigos que votem na Vera. Escrever poesia é um ato de coragem, escrevê-la muito bem é puro talento e sensibilidade.

Vera, neste sentido, é a mais completa tradução do que está a significar a expressão "Poeta de Verdade".

 

(Arlete Gendusa, comunicazione personale, 2 giugno 2012)

Everton Barbosa Correia

"Modernidade tardia e contemporaneidade em três poetas paulistas
  Elyra n.6, 2015

Resumo: "A pretexto de colaborar para conferir maior precisão à formulação conceitual da poesia brasileira contemporânea, certa reflexão é aqui ensaiada em torno do conceito de modernidade e seus desdobramentos na filosofia de Walter Benjamin, para se cogitar sua aplicação ao contexto nacional. A partir daí, esboçam-se alguns pontos de contato entre as expressões poéticas brasileiras modernas e contemporâneas, para ilustrar os trajetos que nossos autores têm trilhado na esteira da tradição recente, através de três poetas paulistas de filiações institucionais e gêneros distintos – a saber, Amador Ribeiro Neto, Marcos Siscar e Vera Lúcia de Oliveira. A partir da produção dos autores escolhidos, interessa destacar a utilização de temas, formas e conteúdos já conhecidos do público leitor, para que cheguemos a uma adjetivação mais precisa das linhas de força que animam a poesia publicada na atualidade"

 

(Everton Barbosa Correia, "elyra" revistada rede international lyracompoetics n.6 2015, 'Poesia e Aceleração')
http://www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/97

  

(...) Poeta de uma compleição similar é Vera Lúcia de Oliveira, seja pela limitação dos versos livres com o poema em prosa, seja pela autenticidade de sua dicção que se destaca de tudo,  sem se afastar e sem se submeter obedientemente à tradição ocidental. A condição bilíngue é um traço que chama a atenção de início na sua produção, já que poucos são os poetas brasileiros contemporâneos que escreveram noutras línguas e, menos ainda, encontraram no exílio a condição propícia para sua expressão, o que parece acontecer com a autora. Digo isso porque, apesar de já ter sido premiada em italiano e em português, ela parece dar uma importância peculiar à sua poesia em língua portuguesa, como se fosse uma necessidade sua ou tivesse alguma coisa que só pudesse ser dita em português, para o público brasileiro. Por uma razão ou por outra, nosso idioma se coloca para ela como uma espécie de porão, aonde ela vai

buscar coisas fora de uso que, contraditoriamente, adquiram utilidade na sua expressão,  quando ela acerta em cheio na poesia.

Observando seus poemas, teríamos tudo para dizer que se trata de um lugar-comum do que venha a ser poesia e, sem fugir disso, aí reside a sua força, porque faz com que sua dicção seja, de fato, poética, sem buscar um parâmetro fora de si mesma, restando somente o que sua palavra põe. Assim, ela nos consola com uma palavra nova, como se esperássemos da poesia algo que nos tirasse do cotidiano. Ela nos socorre da desolação da linguagem, como se estivéssemos todos a esperar por uma nova função para a poesia. Com isso, ela se martiriza por cada um de nós, na medida em que nos oferece sua palavra, que se solda ao que os seus olhos conseguem ver, irradiando novas possibilidades de expressão que é fruto de uma dura ascese, por assim dizer, de um quase sacrifício mergulhado no vazio de que se compõe seu ato antes de cristalizar em linguagem. E são sempre palavras doridas as que saltam dos seus versos para a nossa mente. Palavras que ficam ecoando na nossa memória e na nossa imaginação.

Quem tiver a oportunidade de ouvir a voz da autora, recitando os seus versos, vai perceber que algo no mundo está prestes a se romper, a se partir, a se quebrar... E o mais incrível é que tudo continua como dantes. Esta é a grande aberração, este é o grande escândalo que Vera Lúcia de Oliveira nos dá a ver com seus olhos e todos os demais sentidos, cumprindo sua função de poeta, sacrificando-se por uma coletividade que, por ora, encarnamos. (...)

(...) Tendo sido publicado no livro A chuva nos ruídos (2004), o poema "a vida mesma cura" faz parte de uma coletânea cujo prefácio foi assinado por Carlos Nejar, assim como o volume No coração da boca (2006) tem o prefácio de Ledo Ivo – dois membros da Academia Brasileira de Letras. Há aí, portanto, um universo em expansão que demanda apreciação crítica também no âmbito da universidade brasileira, uma vez que seu volume Entre as junturas dos ossos (2006) foi  premiado pelo governo brasileiro e figura na coleção "Literatura para todos", que é distribuída nas nossas escolas. O título deste livro é bem sugestivo, na medida em que o líquido sinovial – que fica entre os ossos –, tem a função de movimentar as articulações, permitindo o seu movimento suave e indolor. Mas, aproveitando a metáfora, não creio que seja esta a única substância que anima a poesia de Vera Lúcia de Oliveira, já que o líquido cefalorraquidiano – ou simplesmente líquor –, que é o líquido que liga o cérebro à medula, também parece comparecer à sua poesia. Na sua poesia há, portanto, algo que agiliza os nossos movimentos, conferindo- lhes naturalidade, mas há também algo que nos faz pensar e que robustece nossas estruturas, quer nos apresentemos como indivíduos singulares ou como leitores de poesia integrados a uma tradição. (...)

Texto completo:   http://www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/97/95

Roberto Brozzetti

"São Paulo na trilha dissonante da poesia de Vera Lúcia de Oliveira"
Dossier: TERRITÓRIOS DE RESISTÊNCIA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Passages de Paris, APEB.fr, numero 13-2016

Texto completo:

 http://www.apebfr.org/passagesdeparis/editione2016-vol2/articles.html

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(by Claudio Maccherani )