Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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"Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro"
Vera Lúcia de Oliveira, 2001 (2a edição 2015)

"Menino de Rio" - Caetano Veloso

 

Poesia, mito e história
no Modernismo brasileiro

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

Aprecentação de Ivan Marqyues

Editora UNESP

São Paulo, 2015

2a edição
revista e ampliada

14x22 cm, 354 pag
 ISBN: 978-85-393-0509-4
56 R$

Prima edizione di, 
"Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro",
Editora UNESP - edifurb, São Paulo, 2002

La versione italiana del libro, 
"Poesia, Mito e Storia nel Modernismo brasiliano",
è pubblicata da Guerra Edizioni, Perugia, 2000.

Artigos:
 
História e mitos no modernismo
Identidade concebida sem pecado

per l'acquisto del libro:
http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539305094,poesia-mito-e-historia-no-modernismo-brasileiro

Com a análise de textos fundamentais da poesia modernista brasileira, a autora mostra como se cumpriu a difícil tarefa de aliar as peculiaridades e heranças de uma cultura com o tratamento de valores e questões universais [estantevirtual].

S u m á r i o

Agradecimentos

Apresentação

Retratos do Brasil: a poesia modernista entre o mito e a história - Ivan Marques

Introdução

A nossa história é assim

As crônicas: pré-história da literatura brasileira
2 A reabilitação romântica do índio
3 Modernismo: cosmopolitismo e nacionalismo
4 Oswald de Andrade: história e anti-história, uma releitura crítica do passado
O enfant terrible e terno do Modernismo
O projeto ético-social da Poesia Pau-Brasil e as suas repercussões
A linguagem como agente revolucionário
Sob a superfície clara da poesia oswaldiana: interpretações das seções de Pau-Brasil

História do Brasil; Poemas da Colonização; São Martinho; RP1; Carnaval; Secretário dos amantes; Postes da Light; Roteiro de Minas; Lóide Brasileiro

5

Cassiano Ricardo: o culto dos heróis, entre história, mito e mistificação
Cassiano Ricardo, poeta da inquietação
Martim Cererê: a saga dos bandeirantes

Na Terra Grande morava uma sereia chamada Uiara; Certo dia, chegou um Marinheiro; A Uiara disse ao Marinheiro: «Traga-me a Noite»; Foi então que nasceram os Gigantes;  As pegadas dos gigantes no Brasil moderno; Hoje o Tietê narra a história dos velhos Gigantes

Cassiano Ricardo, o historiador

6

Raul Bopp: no tempo sem tempo da gênese
Um Marco Polo do nosso tempo
Bopp-Norato encontra os modernistas
Mussangulá
Cobra Norato: a gênese de uma obra
A estrutura e a linguagem de Cobra Norato
O sentido do retorno às origens

Conclusão

Bibligrafia consultada

Crônicas, tratados e outros textos dos séculos XVI e XVII; Sobre as crônicas e o período colonial; O indianismo romântico; O modernismo; Outros textos e estudos críticos sobre o Modernismo; Outras obras consultadas.

Índice onomástico

O Modernismo, além de ter gerado uma revolução estética na literatura, na música e nas artes plásticas, foi un momento único de intenso debate sobre o conceito de identidade nacional. Nunca antes a poesia esteve tão próxima do contexto histórico-social, ideológico e cultural, tendo como um de seus principais objetivos mostrar as faces contraditórias e diversificadas do país.

Formada em Letras pela Faculdade de Ciência e Letras (FCL) da UNESP, Campus de Assis, a autora – que atualmente reside na Itália e leciona Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira na Universidade de Lecce – analisa três livros fundamentais da poesia modernista brasileira.

Em Pau-Brasil (1925), de Oswald de Andrade, é estudada a predominância da paródia e a corrosão da história oficial a partir de textos dos cronistas dos séculos XVI e XVII. Essa pré-literatura é revista pelo poeta para combater estereótipos, especialmente contra os negros escravos e índios.

Ao ler Martim Cererê (1928), de Cassiano Ricardo, a paráfrase ganha destaque. Estabelece-se assim uma linha de continuidade com os poetas românticos. Occorre, porem, a substitução do “bom selvagem” de José de Alencar pelo “bom bandeirante”, que reuniria audácia, coragem e profunda aspiração à liberdade.


foto Claudio Maccherani, 2003

Em Cobra Norato (1931), de Raul Bopp, é detectado um retorno ao pré-tempo,  ou seja, ao mito. O autor, após uma série de viagens pelo país, em que conhecera diversos costumes e tradições, traz a magia e o misticismo para a sua literatura, buscando encontrar o Brasil primitivo anterior à lógica e ao racionalismo científico.

Resultado de uma pesquisa inicíada para o doturado em Línguas e Literaturas Iberícas e Ibero-americanas da Universidadade de Palermo, este livro mostra como os autores escolhidos propuseram um relacionamento crítico e consciente com o passado nacional, revindicando uma literatura capaz de refletir as peculiaridades nacionais dentro de um âmbito artístico de qualidade universal.

(Capa do livro)

Mário Alex Rosa resenha "Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro" no jornal Estado de Minas

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

 

Em busca da identidade

Em Poesia, mito e história do Modernismo brasileiro, de Vera Lúcia de Oliveira, investiga como três poetas criaram uma estética propriamente brasileira

 

Se cada poeta criou para mais ou menos uma mitificação do Brasil, não foi menor a qualidade criativa literária dos seus livros, o que confirma que a poesia pode ir além da história sem necessariamente negá-la.

 

A interpretação do Modernismo brasileiro, a Semana de Arte Moderna, os manifestos e livros importantes como Pau-Brasil, Macunaíma, entre outros, já foram e são estudados até hoje por diversos pesquisadores. No entanto, o assunto parece inesgotável, o que, por um lado, confirma a diversidade e a importância desse período (1920-1930) para a história não só da literatura, mas da cultura brasileira de modo geral. Mas de outro, talvez, devamos nos perguntar se há outras saídas para repensarmos a ideia de Brasil, às vezes demasiado ufanista?

Não podemos esquecer que o nosso país tinha saído recentemente de um sistema escravocrata, de uma sociedade extremamente desigual, em que o Império era o modelo e uma República duvidosa que foi até 1930. Somado ao contexto internacional, o que esperar de uma literatura nova e que logo despertou para travar um debate – o qual, diga-se de passagem, permanece até hoje, entre local e universal, entre popular e erudito, folclore brasileiro e cultura europeia, enfim, uma busca sem fim para reconhecer a tão polêmica “identidade brasileira”.

Buscando rever a história do Modernismo brasileiro, a professora Vera Lúcia de Oliveira traz, no seu livro Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro, uma importante contribuição para um problema crucial na formação da cultura brasileira: a identidade. A autora parte de três escritores fundamentais (Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo e Raul Bopp), ainda que os dois últimos, infelizmente, sejam menos valorizados pela crítica literária. Para o entendimento da diversidade – não só do ponto de vista estético, mas também do político –, a autora, antes de dedicar um capítulo para cada poeta estudado, percorre de maneira sintética a tradição que vem desde os primeiros cronistas, como, por exemplo, a Carta de Pero Vaz de Caminha. Segundo a pesquisadora, “tanto os românticos quanto os modernistas instauraram um diálogo intertextual com os primeiros cronistas do período colonial”. O que de fato ocorreu, criando assim “raízes dos dois movimentos que mais incidiram sobre o processo caracterizador de uma identidade nacional”. Mas a questão é até que ponto essa intertextualidade resultou numa identidade realmente nacional. Esse problema, como se sabe, retorna com perspectivas diferentes, seja pelos historiadores da literatura brasileira, seja pelos historiadores e até mesmo sociólogos.

No caso desse livro, e segundo as palavras da autora, o propósito foi expor de forma resumida e panorâmica a primeira parte, que diz respeito às crônicas dos viajantes, para depois, de maneira sincrônica, ocupar-se em investigar como cada um desses três poetas, a partir das obras Pau-Brasil (1925), Martim Cererê (1928) e Cobra Norato (1931), se posicionaram sobre a identidade brasileira. Daí o recorte de mito e história, ou seja, se no modernista mais radical predomina a paródia, o deboche da história supostamente oficial; em Cobra Norato, Bopp procura resgatar as origens da mata virgem, daí o mito; enquanto em Martim Cererê parece prevalecer, ainda na leitura da pesquisadora, a apologia da história oficial, sem esquecer uma certa mitologia da cultura brasileira, tão mitificada por um José de Alencar, por exemplo. Evidentemente, essas questões são discutidas em pormenores nos capítulos dedicados a cada escritor. Se cada poeta criou para mais ou menos uma mitificação do Brasil, não foi menor a qualidade criativa literária dos seus livros, o que confirma que a poesia pode ir além da história sem necessariamente negá-la, ainda que de maneira enviesada.
Por fim não deixa de ser oportuna essa nova edição, que tem entre muitos méritos o ótimo capítulo dedicado aos estudos de Cobra Norato. É louvável também destacar que o livro tem linguagem didática sem ser simplória. Como se estivesse “narrando”, a autora, com brilho, faz com que o leitor possa ler sem se preocupar que está diante de uma tese acadêmica, o que não é pouco. Vale lembrar que faltam apenas seis anos para novamente colocarmos em discussão a história, os mitos, os prós e contras da nossa tão discutida independência, a identidade brasileira e também o que de fato representou a Semana de Arte Moderna num país que parecia estar apenas iniciando. Este livro é um ótimo começo.


* Escrito por Mário Alex Rosa: professor de literatura brasileira (Cefet-MG), poeta e autor dos livros de poemas Ouro Preto (Scriptum, 2012) e Via férrea (CosacNaify, 2013). 

"Em busca da identidade" (sobre "Poesia Mito e História no Modernismo brasileiro"), Mario Alex Rosa, Estado de Minas, 25/02/2016

http://editoraunesp.com.br/blog/mario-alex-rosa-resenha-poesia-mito-e-historia-no-modernismo-brasileiro-no-jornal-estado-de-minas

Análise da poesia modernista resgata cultura brasileira do início do século XX 

Dec 15, 2015

Edição revista e ampliada de “Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro” contextualiza questões históricas, sociológicas e literárias brasileiras 

“Tupi or not tupi that is the question”. A célebre frase dita por Oswald de Andrade no Manifesto Antropofágico, em 1928 sintetiza um período histórico de extrema relevância para as artes e culturas no país: o Modernismo. É sobre este tema que a ensaísta, professora e poeta Vera Lúcia Oliveira retorna ao passado na segunda edição revista e ampliada de Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro, publicado pela Editora Unesp. 

Fruto de pesquisa iniciada no âmbito do doutorado em Línguas e Literaturas Ibéricas e Ibero-Americanas da Universidade de Palermo, da Universidade Federico II e do Instituto Universitário Oriental, ambos em Nápoles, Vera Lúcia voltou-se à produção de Oswald de Andrade e dos poetas Cassiano Ricardo e Raul Bopp, que escreveram respectivamente Martim Cererê (1928) e Cobra Norato (1931). Ao analisar a poesia, carro-chefe da vanguarda na década de 1920 e um dos suportes da produção literária moderna, a autora demonstra que o Modernismo brasileiro, além de emancipar definitivamente as letras e as artes, encontrou sua especificidade ao realizar uma ampla investigação sociocultural, abordando classes marginalizadas. 

Ao mesmo tempo, a pesquisadora expõe os aspectos controversos do movimento modernista. Se por um lado há o elogio à colonização e ao nacionalismo pitoresco, de outro existe a imagem do “mau selvagem”, que resistiu à escravidão e à catequese. De acordo com Vera Lúcia Oliveira, a existência desses dois territórios opostos se associa para a criação dos elementos que constituem a poética e a consciência crítica do Modernismo.

Em um retorno ao passado, a autora faz uma contextualização de nossa história literária, desde as crônicas de viajantes até chegar ao momento revolucionário modernista. Desse modo, ao analisar a obra dos três poetas, estrutura questões históricas, sociológicas e literárias.

Pluricom Comunicação Integrada, São Paulo, 15/12/2015

http://www.pluricom.com.br/clientes/fundacao-editora-da-unesp/noticias/2015/12/analise-da-poesia-modernista-resgata-cultura-brasileira-do-inicio-do-seculo-xx


Imagem de Cobra Grande

História e mitos no modernismo

Justamente no ano em que se celebram os 80 anos do modernismo, marco da integração definitiva do Brasil no universo da literatura e das artes plásticas de vanguarda, a Editora UNESP, em co-edição com a Fundação da Universidade Regional de Blumenau lança Poesia, mito e história no modernismo brasileiro, de Vera Lúcia de Oliveira.

Formada em Letras pela Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, campus de Assis, lecionando Língua e Literatura Portuguesa e História da Cultura Brasileira na Universidade de Lecce, sendo que o presente livro tem suas origens justamente em pesquisa realizada para o doutorado em Línguas e Literaturas Ibéricas e Ibero-Americanas da Universidade de Palermo, da Universidade Federico II e do Instituto Universitário Oriental, ambos de Nápoles.

O maior mérito da pesquisa é justamente mostrar como o modernismo se voltou sobre a História nacional para construir uma imagem do Brasil. Vera Lúcia analisa no livro três obras de vital importância no modernismo nacional: Pau-brasil (1925), de Oswald de Andrade; Martim Cererê (1928), de Cassiano Ricardo; e Cobra Norato (1931), de Raul Bopp.

O retorno ao passado proposto pelas três obras é bem diferente. Enquanto Oswald realiza uma paródia corrosiva da História oficial, Cassiano concebe uma apologia daquilo que se ensinava nos livros e Raul concentra suas atenções no tempo do mito, principalmente nas raízes amazônicas.

O curioso é verificar como os três escritores modernistas retomam os cronistas do período colonial – Pero Vaz de Caminha, Gabriel Soares de Souza, Américo Vespúcio e Jean de Léry, entre outros – de maneiras bem distintas. Antecedidos pelos românticos, os autores dos anos 1920 e 1930 compõem uma ruptura com o passado, contestando a dependência passiva em relação aos modelos europeus.

É evidente que os modernistas radicalizam essa proposta, num grande esforço para emancipar as letras e as artes brasileiras. Nesse aspecto, o antropofágico Oswald de Andrade, com seu desejo de deglutir a cultura estrangeira, é modelar. Pau-brasil exemplifica muito bem isso ao fragmentar, decompor e remontar nossa História sob novos ângulos de interpretação.

Cassiano Ricardo, por sua vez, é defensor da vertente modernistas conhecida como Verde-amarelismo. Isso significa, em termos literários e ideológicos, a exaltação de um nacionalismo pitoresco e eufórico, que privilegia um determinado momento da colonização: o fenômeno das bandeiras, que se irradiaram, do século XVI ao XVIII, em várias direções da América do Sul.

Se a antropofagia escolhe o índio rebelde e refratário à escravidão como símbolo do País, o verde-amarelismo adota uma visão neo-romântica do bom selvagem, aquele que teria colaborado de modo pacífico com o colonizador. As duas vertentes, opostas, acima de tudo, segundo Vera Lúcia, contribuíram para revitalizar o panorama literário nacional.

A agradável surpresa do livro é a competente análise do trabalho de Raul Bopp. Chamado de “Marco Pólo de nosso tempo”, o escritor teve uma vida repleta de viagens e de aventuras. Isto pode ser verificado na jornada a cavalo que fez, com 16 anos, atravessando durante oito meses Mato Grosso, Argentina e Paraguai.

O curso de Direito foi feito cada ano numa universidade diferente (Porto Alegre, Recife, Belém e Rio de Janeiro). Para financiar essas jornadas, Bopp fazia de tudo, inclusive pintar paredes. Foi exatamente no período que passou na Amazônia que, provavelmente, veio a força de Cobra Norato – obra que retoma a riqueza e a universalidade do mito local da Cobra Grande – em que o personagem central, o herói-narrador, apossa-se da pele da cobra e sai “a correr o mundo”.

Vera Lúcia conclui que Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo e Raul Bopp “representam contribuições indispensáveis ao debate sobre a definição de uma identidade nacional, prioritário para um país de origem colonial, como ficou evidenciado pela constância com a qual a literatura brasileira retorna à questão”. Neste livro, ela mostra, por meio de ampla pesquisa e perspicaz análise, como os três autores, com cargas maiores ou menores de polêmica, deram contribuições definitivas para a busca de uma maturidade nacional.

Oscar D’Ambrosio, Jornal da UNESP, São Paulo, ano XVII,  n° 169, Agosto 2002, pag.13

Identidade concebida sem pecado

A obra Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro, editado pela Unesp, é um saboroso estudo didático, voltado não só para o público especialista, mas para todos os curiosos e interessados nos primórdios da moderna poesia brasileira

Jorge Pieiro - Articulista do Vida & Arte

 

Símbolo modernista:
 catálogo da Semana de 22

''Quem passa sua vida esculpindo estátuas, vê-se censurado por esquecer os homens. Que dizer daquele que vê esculpir, e fala daquele que esculpe!"  (Gaetan Picon)

 

Há que se refletir sobre uma verdade: há oitenta anos dos prenúncios da aurora modernista no Brasil, esta passagem ainda se estabelece como uma das mais controversas da nossa historiografia literária. A Semana de Arte Moderna, longe das luzes que muitas vezes a distinguem de outros momentos mais ricos da literatura brasileira, foi não mais que uma bizarra encenação de um grupo de jovens intelectuais e artistas da elite, principalmente paulistana, do que verdadeiramente uma ruptura estética com os padrões burgueses anteriores. Na verdade, o que houve foi uma batalha entre altares - parnasianos e ''contrários'', fato mais que evidente, dada a dinâmica incansável dos valores.

Foi evidente a manobra encabeçada, anos após, por Tristão de Athayde - apesar de várias discordâncias com os caminhos abertos pelo movimento -, para que o Modernismo no Brasil se estabelecesse marco com a Semana, em 1922. Diga-se de passagem, que dessa forma, a nova etapa da nossa literatura aprontou-se com atraso em relação aos movimentos europeus, cuja última manifestação se deu em 1924, com o Surrealismo.

O tema é polêmico. Argumentos consistentes e contraditórios consideram tanto revolucionária e vanguardista, quanto falsa e oportunista a nossa primeira fase modernista. Possivelmente, no adro dessa igrejas, nunca será possível estabelecer uma verdade absoluta, ante a fé ou a iconoclastia de cada partido de seguidores.

 

No entanto, relevando as intenções ou os descréditos dos primeiros momentos dessa revolução estética, é conveniente considerar algumas apropriadas perspectivas, acentuadas por alguns autores. Parece-nos que esta foi a consciência tomada, questionada e respondida por Vera Lúcia de Oliveira, na obra Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro, editado pelo Editora Unesp, em parceria com a Editora da Universidade Regional de Blumenau.

A obra resultou de pesquisa em âmbito de Doutorado efetivado na Universidade de Palermo, na Itália, país onde reside e leciona Língua e Literatura Portuguesa e História da Cultura Brasileira (Universidade de Lecce). Apesar de gestado no meio acadêmico, em que muitas vezes os estudos se revestem de um hermetismo, restrito a iniciados, o texto de Vera Oliveira é um saboroso estudo didático, voltado não só para o público especialista, mas para todos aqueles curiosos e interessados nos meandros primordiais da moderna poesia brasileira.

A autora dedica os três primeiros capítulos à contextualização da nossa história literária, desde as crônicas de viajantes, passando pela ''reabilitação romântica do índio'', até desembocar no momento revolucionário do nosso Modernismo, visto como reconstrutor de uma imagem daquele distante passado. É importante ressaltar que Vera Oliveira, ao eleger o Modernismo como o auge do processo de reabilitação crítica, investe, principalmente, na leitura de alguns autores que recuperam, sob certo aspecto, os segmentos da cultura marginalizada, contrariando a leitura ideológica das elites da época.

Daí, os estudos sobre a poesia corrosiva de Pau-brasil (1925), do polêmico Oswald de Andrade, que recupera ''entre tantos fragmentos do passado, uma série de cenas da vida cotidiana dos escravos''; sobre a poesia inquieta, porém, metódica, e apologista, em Martim Cererê (1928), de Cassiano Ricardo; e sobre a poesia voltada para ''um tempo de gênese, ainda não historiado'', em Cobra Norato (1931), de Raul Bopp. Da união dessas três fontes de desejos, a autora reúne um arcabouço de questões históricas, sociológicas e literárias que convencem o leitor, conduzindo-o a uma sensação de perplexidade ante a sua chave de leitura e interpretação.

O foco de pesquisa da autora apaga o velho questionamento em torno do próprio Modernismo, para resgatar o valor existencial de Mircea Eliade, ao afirmar que o ser humano retorna ao passado ''para curar-se da obra do Tempo''. Além disso, a consciência no encaminhamento da leitura de Vera Oliveira em torno dos três autores estudados, é atestada pela importância e pelo ineditismo do trabalho defendido.

O que se ressalta mesmo da obra está manifesta na conclusão da autora, ao afirmar que essas três obras literárias, e não a História, propiciaram a ''recuperação da memória''. Isso, de certa forma, redime os pecados originais do Modernismo, com os quais tanto o povo brasileiro se identifica.

Jorge Pieiro, escritor e professor de literatura, 2002

http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/157754.html

 

Poesia, mito e história
no Modernismo brasileiro

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)


coedizione
Editora UNESP - edifurb


São
Paulo, 2002

1a edição

14x22 cm, 344 pag
 ISBN: 81-7139-388-5
 35 R$

A Editora Unesp não faz venda on-line.
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"Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro"
Vera Lúcia de Oliveira, 2002


"Poesia, mito e storia nel Modernismo brasiliano"
Vera Lúcia de Oliveira, 2000

Versione italiana del libro:

 

Poesia, mito e storia
nel Modernismo brasiliano

 

Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)

 

Guerra Edizioni
Perugia, aprile 2000

15x21 cm, 344 pag

(foto di copertina di Claudio Maccherani)

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(by Claudio Maccherani )