Poesia & Poesia
Poesia bilingue - italiano e portoghese brasiliano.
Vera Lúcia de Oliveira (Maccherani)
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Vera,  foto Claudio Maccherani, 1987

 

"Carta ao Tom 74" - Toquinho, Vinicius de Moraes

 

Intervista 01

Entrevista com
Vera Lúcia de Oliveira
(Maccherani)
de Raul Henriques Maimone
1997

publicada na Revista 
"Insieme"
Revisa da APIESP
Associação de Professores de Italiano do Estado de São Paulo
n.7, São Paulo, Brasile, 1998-1999, pp.43-51

  1. A experiência ao longo da vida, a formação intelectual, as leituras, o contato com as artes, a percepção do ser e do mundo constituem inegavelmente parte significativa de surgimento e crescimento da poesia. Diga alguma coisa a respeito da gênese da sua poesia segundo esta perspectiva.

Penso que a poesia é uma atividade muito lenta, que requer decantação, reflexão. É uma viagem vertiginosa em vertical. E tudo entra e deixa marcas na gente e, quando menos se espera, se transforma em palavra. Sempre tive paixão pelas viagens, e uma inquietude quase dolorosa, que me faz sempre querer o que eu ainda não alcancei, os lugares que não vi, os livros que não pude ler ainda. Crescendo numa cidade do interior, não era fácil muitas vezes satisfazer essa curiosidade insaciável pelo que acontecia no mundo, além da minha rua, da minha vila, do meu país. Não era fácil nem mesmo saber o que acontecia no Brasil, naqueles anos sufocantes de ditadura. Na escola, em casa, minhas perguntas ficavam sem resposta. E eu achava o mundo muito triste, muito injusto, não compreendia porque uns tinham tanto e outros nada, porque alguns amiguinhos na escola não tinham o que comer, porque via crianças laceradas pelas ruas, sem possibilidade de crescer, de viver. Minha poesia nasceu sem forma de poesia, nasceu assim de um questionamento da realidade. Eram perguntas e respostas que eu fazia e que eu mesma respondia, em cadernos que iam se enchendo de inquietações. Mais tarde, graças às experiências, às leituras, fui descobrindo formas mais eficazes, intensas, sintéticas, de expressão. Foi o momento do encontro com a poesia de Drummond, Manuel Bandeira, Mário de Andrade. Já tinha tentado a prosa, breves contos, e tinha inclusive recebido incentivos de alguns professores. Mas o mundo parecia tão complexo, tão maior do que as palavras, tão mais pesado e doloroso... O encontro com a linguagem poética me descortinou novos horizontes, porque a poesia tem a capacidade de revelar, esclarecer, iluminar a realidade, de unir contrários, de conciliar contradições, de abater distâncias entre a palavra e a coisa, de aproximar o homem de si mesmo, de escavar na vida e na morte, de penetrar nas frestas da alma de cada coisa e de cada ser.
Pessoalmente, acho que a poesia tem pouco a ver com a música (como pensavam os simbolistas), ou com a fotografia (como achava a "geração alternativa"), ou com o cinema (como afirmavam os concretistas), ou com a engenharia (como diz João Cabral). Poesia é um pôr a mão na alma das coisas, é intrujar-se em tudo o que é ser, é não poder ver um ângulo, uma fresta, um vão, um interstício, sem querer entrar lá dentro. Porque se escreve, não sei, sei só que posso morrer se não puder me dedicar a essa atividade misteriosa que é a escritura.

  1. Desde o primeiro livro, "A porta range no fim do corredor" (1983), até "Pedaços/Pezzi" (1992), fica evidenciada a preferência por versos curtos e irregulares em relação ao número de sílabas (anisossilábicos), como também o corte abrupto com o aproveitamento de espaços em branco. Do mesmo modo, não há a utilização dos metros e rimas tradicionais. Tais opções estariam ligadas às visões de mundo, de história, de vida recortadas na perspectiva do fragmento, da contradição, do desencontro?

Exatamente, estão muito ligadas. A temática da fragmentação, por exemplo, está muito presente no que escrevo. Os dois últimos livros, Geografie d'ombra e Pedaços/Pezzi (principalmente neste último), são praticamente uma reflexão sobre um momento de excepcional fragmentação da realidade que vivemos. É a nossa condição hoje, aliás, quase a perda da nossa condição humana: o ser visto como peça de sistema, sigla, número. Na televisão, nas imagens publicitárias que nos bombardeiam diariamente, o ser humano quase nunca é visto na sua integridade. Ao contrário, os seres aparecem fragmentados: são pernas, bocas, seios, olhos, cabelos, terrivelmente desconexos.
A tal propósito, o poeta Manoel de Barros afirmou numa entrevista: "Necessidade de reunir esses pedaços decerto fez de mim um poeta. (...) Ficar montando, em versos, pedacinhos de mim, ressentidos, caídos por aí, para que tudo afinal não se disperse. Um esforço para ficar inteiro é que essa atividade poética."
Um poeta que levou às últimas conseqüências essa espécie de esquizofrenia imperante foi Fernando Pessoa, multiplicando-se em outros poetas, tentando dar unidade e coesão a esse tantos estilhaços do seu ser. Só que hoje, talvez nem mesmo a sua heteronimia seria praticável. Porque em Pessoa, existe um centro íntegro de consciência que controla, que dirige o espetáculo dos tantos estilhaços do "eu" em ação. Hoje a sociedade consumística visa desintegrar até mesmo esse núcleo de consciência e lucidez: para que os pedaços de nós não se conjunjam mais, para que o ser caminhe longe de si mesmo, alienado da sua consciência. Hoje o jeito é pôr nos livros os fragmentos, porque é o que o poeta tem nas mãos.
Mas a poesia busca unidade, a poesia quer unir os fragmentos do nosso próprio mundo. Mesmo quando o poeta está trabalhando com estes fragmentos, ele o faz para que se tenha consciência dessa pulverização imperante: o poeta sonha recompor o todo.

  1. Costuma-se dizer com certa constância que a literatura está em crise, que a poesia estaria caminhando para a mudez ou para a simples ecolalia, com o desfazer-se do verso, reduzindo-se a uma expressão de códigos direcionada a número cada vez menor de iniciados. O que você diz a respeito? Qual o futuro da poesia?

A poesia está de fato em crise. Não por falta de criadores, mas por falta de leitores. Isso tem a ver com o que foi dito acima. Tudo, em nosso quotidiano, trama contra a nossa integridade, contra a consciência das forças, sobretudo econômicas e políticas, que condicionam a nossa existência. A poesia luta contra isso, é resistência, é o resgatar o que estamos perdendo da nossa humanidade. Fazer poesia é tentar sobreviver com a nossa sensibilidade, com a nossa fragilidade. Sem contar que a poesia é um instrumento cognitivo fundamental. Hoje, afirmou o poeta Mario Luzi, a poesia é ainda mais importante do que em qualquer outro momento da história, porque nunca o homem esteve tão próximo da sua autodestruição. Mas ela não é uma opção fácil, sobretudo num país como o Brasil. Augusto de Campos afirmou, numa entrevista ao Jornal da Tarde (24/4/80): "Ser escritor no Brasil, já é difícil. Ser poeta, uma obstinação tão sem remédio e sem compensações, que só mesmo acreditando, como Fernando Pessoa, cumprir informes instruções do Além. De qualquer modo, ser poeta para mim é inelutável. A flor flore. A aranha tece. O uirapuru, nun fundo da floresta, toca uma vez por ano a sua flauta, para ninguém. O poeta poeta. Quer o vejam, quer não, ele pulsa. O pulsar quase mudo". É muito eficaz esse depoimento, pois mostra bem o sentimento de quem faz poesia no Brasil, com teimosia e obstinação. Sinto o peso, como muitos, dessa incomunicabilidade, o desgosto de quase não achar canais de publicação, a desilusão de receber, de volta pelo correio, os manuscritos de livros em que trabalhamos anos, sem nem sequer sinal de que tenham sido folheados pelos editores.
Um país tem direito aos seus poetas. Mas um país tem que merecê-los, assim como os poetas têm que merecer o próprio país. Acho que neste momento os jovens poetas brasileiros estão desesperadamente buscando o país que têm, o país que querem ter. Estão mandando mensagens de náufragos, sinais que chegam muitas vezes pelo correio, ou por outros meios, sinais de que estão vivos. A escuridão nunca fez bem a ninguém, o subsolo sufoca até a melhor semente, se não a deixam crescer.

  1. Visto que a poesia não se instaura simplesmente a partir de significações que pairam abstratamente no ar, mas de modo especial pela combinação de significantes no plano sintagmático, como foi e como está sendo a sua experiência poética diante do bilingüísmo?

Essa vivência concomitante de duas realidades, duas línguas, gera inevitavelmente muitos conflitos. A poesia exige um grau de especialização muito grande e uma aderência às formas, e às relações entre essas formas. Um poema não se improvisa, como se sabe. O poeta pesquisa sempre, depura, condensa a linguagem, buscando - não qualquer palavra - mas a única que possa "desentranhar" o indizível. A minha perplexidade maior é justamente como realizar tal projeto, e bem, em duas línguas. Não por uma opção, mas por uma contingência existencial. Comecei escrevendo em português, e nesta língua publiquei um primeiro e breve livro de poesias (A porta range no fim do corredor, São Paulo, 1983). Depois, por circunstâncias várias, passei a viver na Itália e a utilizar quotidianamente o italiano, a pensar, a escrever nesta língua. Com o tempo, o italiano se insinuou como língua literária alternativa para a poesia, que até então tinha elegido exclusivamente o português. Desta esquizofrenia lingüística nasceram os dois livros sucessivos, Geografie d'Ombra e Pedaços/Pezzi, com poemas escritos em italiano e em português.
Aceitar o fato não foi fácil, mesmo porque eu vivia em modo negativo essa dicotomia lingüística, achando que a minha própria poesia estava ameaçada. Um pintor pode continuar a pintar em qualquer lugar esteja, em qualquer país ou realidade cultural ele se encontre. A linguagem figurativa é quase sempre uma linguagem universal. O mesmo ocorre com a música, mas não com a literatura. O código literário é muito mais complexo, pois pressupõe o domínio completo de uma língua, dentro da qual a literatura é só um dos modo da expressão e da comunicação. E existem determinados conteúdos culturais intraduzíveis.
Entre o português (e aqui naturalmente me refiro ao português na sua variante brasileira) e o italiano, existem diferenças marcantes e fundamentais, que revelam posturas existenciais distintas. O Brasil é um mosaico de povos e de tradições culturais díspares e o português é, e sempre foi, um dos principais elementos de integração e de coesão entre os pólos desta complexa geografia humana e cultural.
O italiano tem uma história completamente diferente. Como se sabe, era originalmente a língua da região Toscana, que se impôs, pelo prestígio cultural, ao resto da Itália. Acontece que boa parte dos italianos continua usando o próprio dialeto em família, com os amigos, reservando o italiano para as situações mais formais. Talvez esteja aqui a origem dessa sensação de assepsia afetiva que nos causa a língua italiana, assim como a dicção por vezes demasiada refinada e áulica que contamina também as formas da língua falada. Não é um caso se hoje poetas importantes (v. a entrevista com Franco Loi) elegem o dialeto como língua da poesia, porque língua dos sentimentos e ao mesmo tempo da concretude, língua da relação direta com as coisas e com o mundo. Desta forma, o bilingüísmo acaba sendo a condição de muitos italianos e esse é um dos aspectos problemáticos deste país, já que a relação entre os dialetos e o italiano é difícil e muitas vezes conflitante. Em tal contexto, a minha situação de bilingüísmo acaba sendo quase normal. Aliás, vários poetas italianos recorrem à auto-tradução (dialetos/italiano, ou vice-versa).
Agora, existe um outro aspecto (e este, creio, positivo) nesse alternar-se de dois códigos lingüísticos: a desautomatização que o fenômeno gera. Quando se passa de uma língua para a outra, depois de um período de ausência, voluntária ou não, saboreamos de novo os sons, a musicalidade palpitante de um vocábulo, de uma frase, a harmonia ou a rispidez de uma frase, a surpresa latente que só a distância pode gerar e cultivar. Substantivos e verbos perdem o anonimato do automatismo. É natural que os falantes de uma língua acabem perdendo a sensação muitas vezes de "alumbramento" provocada por uma palavra pronunciada ou ouvida pela primeira vez. Os poetas e artistas são capazes deste olhar estranhado, mas é necessário um aprendizado, uma educação interior, para se chegar a esse resultado.
Descobri, quase sem querer, que essa condição em que me encontro, dividida entre dois mundos, apesar de toda dilaceração que comporta, carrega em si essa possibilidade de potencializar o estranhamento, que é a própria raiz da arte e da poesia (Miró, para conseguir esse efeito na sua pintura, aprendeu a desenhar com a mão esquerda).

  1. Para encerrar, fale-nos a respeito de projetos em andamento e de novas publicações.

Tenho um livro inédito de poemas, cujo título é Tempo de doer. Tem por tema a dor, a dor do ser vivo, até das coisas e das pedras. Aliás a dor é para mim um tema recorrente. Nunca pude entender o sofrimento, aceitá-lo. E todavia estou consciente de que a vida brota da dor e que tudo o que fazemos, o que aprendemos, nosso processo de crescimento, é eivado de ânsias, incertezas, sofrimentos.
Tenho muitos projetos, entre os quais o de um livro trilingüe (italiano-português-espanhol) em co-autoria com Gladys Dazza Basagoitia, escritora peruana de grande intensidade e visceralidade, que vive na Itália há vários anos, por questões políticas. Serão auto-traduções e traduções recíprocas publicadas, contemporaneamente, nas três línguas. Mas é um trabalho que procede em modo lento, não sei bem porquê. É como se, neste esforço, a gente tivesse medo de se dispersar ainda mais.
Neste momento, além da tese de doutoramento, estou trabalhando em um novo libro, que se chamará Pássaros convulsos. Estou de novo vivendo uma grande inquietação, uma busca de contato com o que existe de intenso e verdadeiro, concomitante ao impulso sempre mais forte de refletir sobre a história, destrinçar seus fios, de virar do avesso sistemas, leis, ideologias que marcam de violência nossa existência.

Raul Henriques Maimone, Novembro de 1997

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(by Claudio Maccherani )